Sabor da paixão


Uma das coisas que mais gosto no Netflix é quando ele faz a sugestão de filmes pra mim. Gosto porque costumam aparecer uns títulos que jamais imaginei que existia.

Um deles me chamou a atenção “Sabor da paixão (woman on top)”. Chamou a atenção porque vi Penélope Cruz como uma personagem baiana, interagindo com atores brasileiros, entre eles, Murilo Benício. Se eu tinha ficado curiosa com esta mistura, me choquei mais ainda ao ver que o filme era em inglês.  Sim, senhoras e senhoras.

A trama se passa boa parte no nordeste brasileiro e eles falam em inglês, praticamente o tempo inteiro. De curiosa, cliquei para ouvir em português e me assustei ao não ouvir a voz do Murilo, mas sim, outro dublador.

Tico e teco na cabeça quase piraram rs rs

O interessante é que finalmente entendi o sotaque dos brasileiros falando em inglês. Alguns atores soavam bem mecânicos, mas outros até que me enganaram. A história não é das mais interessantes.

“O sabor da Paixão” conta a história de Izabella uma baiana que tem problemas com enjôo e que encontra conforto na cozinha. Já que estamos falando do Brasil, podemos dizer que ela é uma cozinheira de mão cheia.

Ela se apaixona por Toninho (nome mais brasileiro, impossível) e juntos abrem um restaurante. Mas, como toda caracterização de homem nativo, ele trai Izabella e ela resolve ir para São Francisco morar com seu amigo que se veste de mulher. Nesta viagem, Izabella faz uma oferenda a Iemanjá pedindo que a ajude esquecer de seu marido.

Lá, ela encontra um americano que se encanta por ela e resolve dar uma chance para ela na TV. Izabella encanta a todos com sua beleza e talento e fica famosa. No Brasil, Toninho está a falência e sente falta da esposa. Ele vai até São Francisco para recuperar o seu amor.

É um romance pastelão, mas é interessante observar como somos retratados por aí.

ps: certas expressões brasileiras não fazem sentido algum no inglês rs

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Frozen – O que é o amor verdadeiro?


Finalmente, depois de muito tempo querendo, conseguir assistir a “Frozen – um aventura congelante”. Apesar da música “Let it go” ser sucesso, optei por assistir  à animação na versão dublada. Sim, sou daquelas que gosta de ver desenho na minha língua rs rs

***spoiler****

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Quando eu vi os primeiros teaser´s, criei uma imagem totalmente diferente do filme. Jamais pensei que a Disney realmente já estava mudando a forma como tratar as personagens femininas. Achava que a Elsa era tipo a rainha má da Branca de Neve e que ela queria matar a ruivinha. Me enganei rs.

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Na história, Elsa e Anna são princesas de Arendell e irmãs inseparáveis. Elsa tem o poder de “lançar” gelo e neve pelas mãos e, durante uma brincadeira, Elsa sem querer ataca sua irmã. Para a segurança de Anna, sua memória é apagada e Elsa se esconde dela e do mundo, pois teme não conseguir controlar o seu poder.

Anos depois, no dia da coração de Elsa como rainha, um acidente acontece e todo o reino descobre seu poder. Ao contrário de todos, Anna não se intimida e quer ajudar a irmã que foge para as montanhas. A aventura começa aqui, ela conhece novos personagens e enfrenta diversos perigos para ajudar a sua irmã.

O que mais me chamou a atenção neste desenho foi a questão do que é o “amor verdadeiro”. Quando Anna é atingida pelo poder de Elsa, seu coração começa a congelar. A cura só acontece através do amor verdadeiro. Nos contos de fada tradicionais a resposta estaria no beijo de um belo rapaz, certo?

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Pois bem, em “Frozen” não foi assim. Quando Anna está quase recebendo o beijo verdadeiro e, quase morrendo, ela vê sua irmã em perigo e decidi salvá-la. Ignora sua fraqueza e como seu último ato da vida, impede que Elsa seja morta. Está aí, bem claramente, uma demonstração de amor verdadeiro. Claro que, para ajudar a entender isso, o bonequinho da neve repete a frase: isto é o amor verdadeiro.

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Amor verdadeiro é amor entre irmãos. Claro que filosoficamente podemos expandir o conceito de irmão para além do convívio familiar, mas eu fiquei admirada pela ideia da Disney de dizer que encontramos o verdadeiro amor dentro de nossa família. É muito lindo isso. E olha que maravilha: amor é a chave para Elsa controlar seu poder. Lindo, né?Com certeza é uma animação que toda criança (e por que não adulto) deve assistir.

Outra coisa que me chamou a atenção e me fez gostar ainda mais do desenho foi que Esza precisou se aceitar. A música “Let it go” faz sucesso, na minha opinião, justamente por ser no momento em que ela se assume. Sim, ela tem poderes….sim, ela pode ser do jeito que é. E uma das coisas mais difíceis na vida é sabermos justamente quem somos e nos aceitarmos.

Arrasou, Disney…mais uma vez!

 

Oz – mágico e poderoso


Neste fim de semana fiz algo que há tempos não fazia: assistir a um filme no seu fim de semana de estreia. Costumo evitar por causa das filas, mas com a tecnologia ao nosso favor, foi possível comprar via internet rs.

O filme escolhido foi “Oz – mágico e poderoso”. Eu já tinha ficado encantada com o trailer e ficado encantada com a direção de arte, efeitos e com a história. Este filme, pelo menos pra mim, contaria a história do Mágico de Oz, como tudo começou.

Sinpose por Adoro cinema: Oscar Diggs (James Franco) trabalha como mágico em um circo itinerante, é bastante egoísta, mas é seu envolvimento com mulheres que o acaba levando para uma mágica aventura na Terra de Oz. Chegando lá, ele conhece a bruxa Theodora (Mila Kunis), que o apresentar para a irmã Evanora (Rachel Weisz). Acreditando que estaria fazendo um bem para a população local, ele decide enfrentar a bruxa Glinda (Michelle Williams), mas descobre que ela lembra um amor do passado e seu comportamento em nada se assemelha ao de alguém realmente malvado. Dividido entre saber quem é do bem e quem é do mau, Oscar se depara com um lugar rico em belezas, cheio de riquezas, estranhas criaturas e também mistérios. Vivendo este conflito, o ilusionista vai usar sua criatividade para salvar o tranquilo povo de Oz das garras de um poderoso inimigo. Para isso, contará com a inusitada ajuda de Finley, o macaco alado, e uma menina de porcelana.

Fui ver na sala IMAX 3D e acho que foi um excelente investimento porque este longa foi feito para ser assistido assim: quase todas as cenas possuem a profundidade de campo do 3D e muitos planos e sequências foram pensadas para isso.

A abertura já é esplêndida: toda história anterior à cidade de OZ está com imagem envelhecida e formato 4×3 da tela. Bem como nos filmes antigos. E  na hora que ele chega na cidade mágica, a imagem cobre a tela inteira. Eu fiquei extremamente encantada que eles usaram e abusaram dos recursos cinematográficos, brincando com formatos, sons e a própria imagem.  Tudo era muito lindo: cenário, figurinos…nossa..arrasaram. Aliás…olha que legal esse blog.

Os atores foram muito bem escolhidos e acredito que tenham encaixado bem. Destaque para a Mila que se transforma, literalmente, dentro do filme. O roteiro também foi interessante: piadas engraçadinhas, mas a história não foi muito Disney não. Digo isso porque a moral da história ficou esquisita. A impressão que dá é que a verdade Disney não venceu, mas não quero estragar a sua ida ao cinema. Deixo até o trailer pra você ficar com um gostinho de quero mais!

“A garota da capa vermelha”


Eu já tinha visto o trailer, vi que tinha estreado no cinema, mas na época não fui ver do que se tratava “A garota da capa vermelha” (Red Riding Hood, 2011). Zapeando pela TV vi até um breve making of realizado pelo canal E! e fiquei pensando quando poderia assistir.

Olhei a direção e vi que é de Catherine Hardwick, a mesma que dirigiu o primeiro filme da Saga Crepúsculo e já consegui traçar um perfil de como seria o filme: algo místico, no caso o lobisomen, com toque de sensualidade da “virgem” personagem principal.

E não é que eu acertei? Tudo bem que o filme é baseado no conto da Chapeuzinho Vermelho, mas bem longe da versão Disney que eu conhecia. Deve ser mais parecida com a versão dos irmãos Grimm e o longa conta a história de Valery (Amanda Seyfried – detalhe que só tinha visto esta atriz em “Meninas malvadas” e gostei de ver ela em um filme no qual ela não fosse a loira burra) que vive em uma vila medieval aterrorizada por um lobisomen.

Claro que a premissa da lua cheia existe neste filme, mas ao contrário de outros filmes que já vi sobre lobisomen, existe o fator da lua vermelha. Neste período da lua, o lobosimomen fica ainda pior e se morder alguém, espalha a maldição. Assim, todos da vila ficam desesperados e se escondem ao anoitecer para evitarem que o pior acontece. Ao pedirem ajuda, para acabar com a fera, um padre afirma que o lobo vive ali entre eles e a tensão se instaura para buscar quem é o culpado pelas mortes.

Em meio a esta tensão, a personagem principal é apaixonada pelo seu melhor amigo, mas é prometida ao rapaz mais rico da Vila. Diferentemente dos contos de fadas, onde o amor aparece de forma pura, fica claro o desejo entre a personagem e o seu amor, tendo algumas cenas que tira a classificação livre do cinema.  Para apimentar o filme, chega o ataque do lobo computadorizado.

E eis que vem algo interessante: Valery consegue se comunicar com o lobo. Algo meio Harry Potter que podia falar e ouvir as cobras. Neste diálogo, ficamos sabendo que o lobo deseja leva-la embora. A garota olha bem nos olhos do animal – achei a cena mais interessante de todo o filme – e percebe que são olhos humanos e castanhos.

A partir daqui ela começa a buscar nos olhos de todos os seus vizinhos aquele par de olhos castanhos. A trama foi feita de forma que você pense que o verdadeiro vilão é senão o amor da vida dela.  Confesso que eu caí e achei genial a forma como mostram quem é o culpado. Não vou dizer aqui porque o filme só compensa por esta parte já que os efeitos visuais não surpreenderam tanto.

Depois de ver este filme, fico me perguntando se ‘A branca de neve e o caçador’ vai seguir por este mesmo caminho: “desmistificando” o conto Disney e deixando ele mais adulto com efeitos visuais. Só quero saber qual vai ser o elemento surpresa se a história já é conhecida por muitos e muitos anos…desde a época do “Era uma vez…”

Deixo o trailer aqui 

Bruna Surfistinha


Já tinha ouvido falar (e muito) de um livro chamado “O doce veneno do escorpião” que contava a história de uma garota de chamada Raquel Pachedo, pseudônimo – Bruna Surfistinha, menina que fugiu da casa dos pais adotivos para ser garota de programa.

Uma história um tanto quanto chocante ainda mais porque você consegue comparar com uma montanha russa. Seu início foi lento e assustador.

Depois engrenou na velocidade máxima, ganhou muito dinheiro,mas com os loopings foi se perdendo, ficou viciada em cocaína e quando não tinha mais nada e devia para todos, teve um treco e foi internada.

Eis que ela estabelece um prazo, seus 21 anos, para parar de se prostituir. Tal enredo está presente no longa lançado este ano e dirigido pelo novato Marcus Baldini (formado em rádio e tv – eba!).

Como não li o livro, a história para mim fica com o final meio aberta e me pergunto se a Bruna verdadeira ainda faz programa..mas, este não é o foco do post e sim,o filme.

Vamos lá. A começar por Déborah Secco. O início do filme me lembra muito o início da carreira da atriz em “Confissões de adolescente”. Um pouco mais velha, claro, a personagem está com seus 17 anos e é a menina que não se encaixa em lugar nenhum.

Um super clichê para futura revoltas, eu diria, e Déborah Secco deixa isso transparecer de uma forma muito verdadeira. O jeito que ela se movimenta, suas expressões faciais combinam com as movimentações e posicionamento de câmeras aumentando a tensão.

Para completar a trilha: por mais que seja estrangeira, se encaixa em muito no que estamos vendo. Até parece uma matéria jornalística onde sonora e imagem devem dizer a mesma coisa.

Quem está preocupado com as cenas de sexo, nem sei muito o que falar. Não espere um filme pornô, mas há algumas cenas mais trabalhadas. Eu gostei da forma como foi editado porque você sabe que ela é garota de programa, mas não precisa ficar vendo a todo instante o ato em si. Afinal, o foco do filme é ela e não o sexo. Nessas horas a gente vê umas cenas hilárias, como ela fazendo xixi em um cara.

O filme tem um pouco mais de duas horas e confesso que sua montagem é meio esquisita. O diretor dá muita atenção ao início da vida de garota de programa de Bruna Surfistinha. Conhecemos, a partir das imagens, toda a tensão da menina, desespero e desejo de ser independente. Ficamos até sabendo como o blog foi criado, mas para mim o filme se perde no final.

A resolução não fica muito clara (tal a minha dúvida se ela ainda é Bruna ou se já voltou a ser Raquel), é tudo muito rápido. De repente, puft! Acabou o longa.

Pode até ser que esta tenha sido a opção mesmo, deixar a subida, auge e queda no foco e a superação de lado o que diferencia dos filmes que andamos vendo por aí.

A nossa heroína (não a droga, mas a personagem) continua na luta ao invés de vencê-la. Escrevendo isso agora deixou o filme até mais interessante para mim.

Se o filme vale a pena? Pra mim, tecnicamente está bem feito, roteiro interessante, atores bem trabalhados, direção de fotografia e arte animais…só a temática que não me chama a atenção. Mas como tava na boca de todo mundo, acabei assistindo.

O discurso do Rei


Eis um filme que eu nem fazia muita questão de assistir. Ganhador do Oscar de melhor filme neste ano, o longa também levou a estatueta de melhor ator(Colin Firth)  e melhor atriz (Helena Bonham Carter) coadjuvante, dentre outros prêmios.

Não teve jeito. Tantos comentários me fizeram assisti-lo. É um filme totalmente diferente do que andamos vendo por aí.

Sem efeitos especiais e mais voltado ao roteiro, “O discurso do Rei” pode parecer monótono.

Mas, para olhos mais atentos, agrada nos enquadramentos. Cada plano é  sensacional e uma montagem nada convencional atrai a atenção de quem gosta de coisas diferentes.

Sem contar que a atuação do personagem principal é de tirar o fôlego.

Ainda mais para mim que estava acostumada a vê-lo em filmes “bobos” como “Tudo o que uma garota quer” e “O diário de Bridget Jones”.

Eu não entendo os critérios para ganhar um Oscar, mas a atuação dele me convenceu. Se não tivesse assistido a outros filmes poderia jurar que ele tinha problemas sérios com a fala.  Foi incrível.

O longa também me lembrou Harry Potter. Talvez porque o rei falecido seja Dumbledore, a esposa a Belatriz  e o primeiro ministro o Rabicho (ehehe). Mas como bons atores, só o rosto é familiar. Eles estão bem diferentes do mundo mágico.

Voltando ao discurso, vale a pena assistir. Seja pelo roteiro (David Seidler)belíssimo, montagem encantadora e planos surpreendentes(direção de Tom Hooper). Deixe o preconceito pelos longos diálogos de lado e aproveite o ganhador do Oscar.

Prêmios: (fonte: adorocinema.com.br)
OSCAR
2011
Ganhou
Melhor Filme
Melhor Diretor – Tom Hooper
Melhor Ator – Colin Firth
Melhor Roteiro Original

GLOBO DE OURO
2011
Ganhou
Melhor Ator – Colin Firth

BAFTA
2011
Ganhou
Melhor Filme
Melhor Filme Britânico
Melhor Ator – Colin Firth
Melhor Ator Coadjuvante – Geoffrey Rush
Melhor Atriz Coadjuvante – Helena Bonham Carter
Melhor Roteiro Original
Melhor Trilha Sonora

INDEPENDENT SPIRIT AWARDS
2011
Ganhou
Melhor Filme Estrangeiro

GOYA
2011
Ganhou
Melhor Filme Estrangeiro

SAG AWARDS
2011
Indicações
Melhor Elenco
Melhor Ator – Colin Firth
Melhor Ator Coadjuvante – Geoffrey Rush
Melhor Atriz Coadjuvante – Helena Bonham Carter

FESTIVAL DE TORONTO
2010
Ganhou
Melhor Filme

Burlesque


Uma mistura de Chicago com Moulin Rouge com pitadas de Show Bar ou uma tentativa de trazer de volta ao mundo das celebridades a esquecida Christina Aguilera? (detalhe: ela é a produtora executiva, o que explica muita coisa) Ou ainda desenterrar a carreira de atriz da Cher?

Foram essas perguntas que passaram pela minha cabeça quando vi o cartaz do filme Burlesque pela primeira vez.  O trailer resume bem a história e evita surpresas durante o longa o que o deixa um pouco sem graça.

A história é sempre a mesma. A garota do interior, linda, mas órfã de tudo vai para a cidade grande tentar realizar seu sonho de cantora. A nossa garotinha no caso é Allie (Cristina Aguilera) que está bem magra (ao contrário do que andamos vendo-a por aí).

A precária atuação de Christina Aguilera

Sim, temos o mocinho charmoso, mas ele também faz parte da plebe é ele quem mostra Burlesque à nossa heroína. Para entender melhor, Burlesque é uma casa de show em Los Angeles, no estilo Moulin Rouge de Paris. Claro que é bem mais simples e o glamour é diferente uma vez que as vedetes ali não cantam, só dançam e dublam.

É muito brilho pra lá e pra cá. Coreografias provocantes, flexibilidade alta e o filme gira em torno dessas apresentações. A dona deste lugar é ninguém menos que Tess (Cher). Para variar, ela tem o fiel amigo gay e é divorciada aumentando o clichê da divorciada batalhora/coitadinha que luta para manter o clube aberto.

Mas tem coisas neste filme que realmente agradam. O cenário, cortes de câmera e iluminação são de dar água na boca. E a cena na qual Cher canta sozinha é de arrepiar.

A primeira referência ao filme Moulin Rouge é a nossa primeira visita ao clube. Que música que elas cantam? Ah sim..lembra da entrada da personagem de Nicole Kidman? Ta dám! É a mesma música dos diamantes. Claro que bem menos glamourosa.
Lembre da cena:

As referências ao filme Chicago aparecem mais sutis. As roupas, intrigas entre vedetes e aquele sonho de ser famosa aparecem bem amarrados no enredo, mas não enganam quem já assistiu ao musical.
Reveja uma cena:

Mencionei o filme Show Bar por causa da inocência da nossa protagonista. Loirinha e super talentosa ela luta para encontrar seu lugar no palco.

Mas apesar de ter essas semelhanças, eu não encaixo o filme na categoria musical. É mais um filme musicado porque as músicas só aparecem no palco mesmo. Nenhum personagem canta para conversar. Eis outra parte que lembra Show Bar.

Lendo este post até parece que não gostei do filme. Confesso que não é um dos meu favoritos, mas vale a pena para quem sentia saudades do vozeirão de Christina Aguilera, da Cher nas telonas ou das coreograifas super flexíveis das vedetes. Fora isso, esqueça a atuação da nossa protagonista. É muito fraca. A coadjuvante Niki deveria ter ganho mais destaque já que atua bem melhor. Sem contar que o longa passa muito a impressão de que a “mestra” Cher está passando o bastão para a novata quando pensamos no início da carreira de Cher como atriz.

Vá ao cinema se não tem dó de gastar ou seu dinheiro ou se estiver realmente com tédio, se você é daqueles que ama um bom enredo. Mas se sua paixão é fotografia, vai com tudo! É uma pena que faltou uma cena de Christina cantando com Cher.

Cisne Negro


O balé sempre foi algo que me impressionou muito. Fico encantada com a flexibilidade, feminilidade e disciplina que as bailarinas apresentam tanto com as sapatilhas quanto no dia a a dia. Quando algum filme sobre esta temática surge, não tem como evitar de assistir.

Encontrei “Cisne Negro”, do diretor Darren Aronofsky, por acaso. Já fazia um tempo que não ia ao cinema e logo vi uma amiga comentando no twitter que iria assistir. Achei o título estranho e fui conferir no youtube o trailer.

Não demorou muito para que eu visse o longa. Mas engana-se quem pensa que o balé é o tema central. Acredito eu que seja mais os confiltos internos de Nina do que a vontade de se tornar a primeira bailarina da companhia. É o maniqueísmo que se manifesta na tela.

É um suspense psicológico. O uso de câmeras na mão e planos fechados nos ajudam a entrar no clima de paranóia da personagem Os cortes rápidos despertam medo, angústia e até pena da protagonista. Seus medos criam vida nos quadros que sua mãe pinta, no andar das  outras bailarinas sem contar que todos parecem querer matar a protagonista a qualquer momento.

Para aumentar a tensão, Nina é frágil, muito magra e sua voz muito delicada. Mas de santa não tem nada. Nina seria o que Freud daria como exemplo da sexualidade reprimida. O grande desafio dela é interpretar o cisne negro, a sensualidade, maldade e a luxúria encarnados neste animal que trai a sua irmã pura, o cisne branco.

Para isso, Nina passa por uma luta interna contra sua criação e medo. O fato de ela sangrar, perder unhas e aparecerem hematomas não tem nada de espíritos envolvidos, mas sim o seu lado selvagem querendo sair dela. Algo que pode acontecer com muitas pessoas.

Isto fica muito claro quando ela consegue finalmente interpretar o cisne negro. Conforme ela dança, de sua pele saem escamas e depois penas negras, ritual de transformação da menina protegida à mulher destemida. Ao mesmo tempo em que ocorre aquela situação no camarim (não vou contar pra não estragar).
Assim como acontece em Clube da Luta, o limite entre a realidade e a imaginação desparece se nos entregamos ao filme de corpo e alma. Natalie Portmam surpreende na atuação e muitos acreditam que ela irá ganhar a estatueta de melhor atriz. Eu concordo.

Como não sou nenhuma cinéfila de carteirinha, indico o blog pipoca moderna para análises mais profundas deste filme que com certeza marcou a carreira de Natalie Portman.

Enrolados


A nova animação da Disney 3-D promete boas risadas. Quando vi o cartaz pela primeira vez achava que “Enrolados” seria uma completa sátira à história da Rapunzel, mas me enganei.

Tem claras referências, mas é uma história que parece infantil, com toques de ironia, amor e belas lições de moral. Tudo isso com um roteiro muito bem escrito e imagens que fazem jus à nossa imaginação quando lemos algum conto de fada.

A história é sobre uma princesa chamada Rapunzel, raptada por uma mulher por causa da propriedade mágica de seus cabelos. Seus loooongos cabelos não podem ser cortados, senão perdem o poder como a história de Sansão.

O sonho da garota é sair da torre onde vive, mas sua mãe a proíbe e coloca os típicos medos de quem quer prender alguém.  Um dia, por mera coincidência, um rapaz (ladrão) tenta se esconder na torre ao fugir de um cavalo muito engraçado. É aí que aventura começa.

É muito difícil uma obra da Disney me desanimar e esta mais uma vez me agradou em cheio. Mesmo com o cinema lotado de criancinhas (eu temia os choros e a impaciência delas) a experiência valeu a pena.

Ainda desconfio se este filme foi realmente feito para crianças. Se foi, com certeza eu ainda não cresci.

Semana Hitchcock – Parte final


Planos dentro da banheira

1.       Plano fechado – Marion de ombros para cima e de frente para a câmera se ensaboando. Ela liga o chuveiro e a água começa a cair.

2.       Plano detalhe do chuveiro derrubando água

3.       Plano fechado – mesmo enquadramento de Marion no primeiro item, ela se enxaguando.

4.       Plano fechado na lateral de Marion com o chuveiro à esquerda da tela e ela à direita. A personagem se ensaboa e se molha.

5.       Plano detalhe do mesmo enquadramento anterior, mais próximo da personagem.  Ela esta na diagonal da câmera e continua a se ensaboar.

6.       Plano fechado da lateral do chuveiro – vemos a água caindo.

7.       Contra-plano fechado, vemos Marion recebendo a água de olhos fechados.

8.       Plano fechado com Marion em primeiro plano se enxaguando e em destaque a cortina atrás dela ocupa a maior parte do enquadramento.  Há um leve contra luz que rebate na cabeça de Marion vindo por trás da cortina que marca a silhueta da atriz e a destaca do fundo.  Conforme a sombra do assassino se aproxima, o mesmo ocorre com a câmera dando a impressão de que somos impulsionados para a tela para entender o que está chegando.  O quadro fecha com o rosto de Marion no canto inferior direito da tela.  A sombra na cortina ocupa a maior parte do enquadramento e está na centralizada um pouco mais para a esquerda.  Marion é retirada do plano e a câmera se aproxima mais da cortina. A partir daqui vemos a silhueta perfeita de uma pessoa da cabeça até a barriga. A personagem se aproxima, levanta a mão direita e abre a cortina.  Quando a cortina é aberta, vemos só a silhueta do assassino causada pela contraluz e falta da key light. O assassino segura uma faca com a mão direita. No exato momento em que esse estranho, que está com uma faca na mão, abre a cortina rapidamente, a música volta. Não é mais aquela sensação que tínhamos anteriormente. Os violinos utilizados na música marcam exatamente as facadas que o assassino está dando na personagem. Além disso, os gritos aumentam o terror. Segundo Brener, Herrman causa isso por causa do ostinato, repetição constante de um motivo (melódico, harmônico ou rítmico), figura definida ritmicamente, repetitiva, persistente em geral no mesmo registro e na mesma intensidade. Esta repetição causa a tensão e ela aparece na música casada com as facadas do assassino.

9.       Plano fechado – Marion de ombros para cima vira assustada e nota a presença de seu assassino.

10.   Plano detalhe de seu rosto à direita da tela assustado e gritando.

11.   Plano super detalhe da boca de Marion gritando.

12.   Plano fechado contra-plongée do assassino na diagonal com a menção de esfaquear. Em primeiro plano, vemos a água do chuveiro. Não conseguimos ver o rosto do assassino nem as características da roupa e feições por causa da contra luz.

13.   Contra plano plongée – Marion, de ombros para cima e um leve teto recebe a primeira facada. A luz vem da direita para a esquerda, no mesmo sentido da facada.

14.   Plano fechado normal – assassino com contra luz acentuado preparando mais uma facada.

15.   Plano fechado plongée – aparece parte do assassino tentando dar outra facada, a cortina da banheira. É um dos planos mais curtos que só é percebido se prestado bem atenção.

16.   Plano fechado plongée visto de cima – O braço do assassino invade a banheira e parte do corpo também aparece, mas ele fica de costas para a câmera.  Marion está nua, mas por causa da água do chuveiro, cortina e da rapidez da cena nada é mostrado.  Nem mesmo o rosto de Marion, uma vez que ela esconde ao mesmo tempo em que tenta se defender da facada.

17.   Plano super detalhe do rosto dela gritando sem a preocupação de seguir o movimento dela. A câmera fica estática e Marion até sai e volta de quadro.

18.   Plano fechado plongée – Marion à direita da tela e a mão do assassino invade o enquadramento tentando esfaqueá-la. Ela tenta se proteger.  A luz deixa as formas ressaltadas.

19.   Plano detalhe do rosto de Marion gritando, com ênfase do nariz ao queixo da personagem.

20.   Volta para o plano 18, mas Marion está mais afastada e vemos a faca em primeiro plano tentando acertar a personagem e seu corpo está meio desfocado.

21.   Plano fechado do assassino visto de frente em segundo plano. Em primeiro plano está a chuva que ajuda a contra luz a manter o clima de suspense sobre a identidade do personagem.  A luz atrás aumenta a profundidade de campo, destacando o personagem do fundo.  Ele tenta outra facada.

22.   Plano fechado do rosto de Marion atrás da água caindo tentando escapar da facada.  Ela até sai do enquadramento.

23.   Plano detalhe do assassino se aproximando da tela como se aproxima da vítima.

24.   Plano super detalhe do pescoço de Marion tentando se esquivar de outra facada.

25.   Plano detalhe da água do chuveiro caindo e em segundo plano o rosto do assassino desfocado.

26.   Plano super detalhe desfocado do rosto de Marion e sua mão tentando escapar de outra facada.

27.   Plano detalhe da água do chuveiro caindo e em segundo plano o rosto do assassino desfocado.

28.   Plano super detalhe desfocado do rosto de Marion e sua mão tentando escapar de outra facada.

29.   Plano detalhe da água do chuveiro caindo e em segundo plano o rosto do assassino desfocado.  A facada é dada de frente e atravessa o chuveiro vindo direito ao telespectador.

30.   Plano fechado da barriga de Marion recebendo outra facada.

31.   Plano super detalhe do rosto de Marion tentando escapar de outra facada. Ela está no canto direito e sai de enquadramento.

32.   Plano fechado contra plongée do teto para destacar a facada do assassino que vem da direita para a esquerda da tela.

33.   Plano fechado das costas de Marion à esquerda da tela recebendo a facada pela direita da tela.  A personagem está em primeiro plano e o braço do assassino em segundo plano.  A contra luz está mais forte que a key light.

34.   Plano fechado do rosto de Marion mais para esquerda do quadro gritando e tentando espantar a facada de si.

35.   Plano detalhe plongée das pernas de Marion, dos joelhos para baixo com parte do chão da banheira mostrado para sinalizar o sangue escorrendo junto com a água.

36.   Plano super detalhe de Marion gritando e virando o rosto tentando se defender.

37.   O plano anterior recebe um corte e é aberto, mostrando Marion com o corpo virado para frente e o rosto para trás. A iluminação vem da direita para esquerda e a imagem quase não tem destaque do fundo, como se ela tivesse se desintegrando na parede.  Ela vira de costas e recebe outra facada.

38.   Plano detalhe plongée das pernas de Marion, das coxas para baixo, sem mostrar os pés, sinalizando a agitação da personagem.

39.   Plano super detalhe da parede e a mão de Marion aparece no centro da tela desfocado. E logo sai.

40.   Plano fechado, Marion aparece de costas do pescoço à cabeça, levantando a mão como se tivesse se rendido.

A música combina muito bem com os gritos de Marion e os cortes de câmera que Hitchcock utilizou no momento do assassinato. Isso acontece em 24 segundos, então a música muda de tom, passando para algo mais desesperador, que nos causa dó e ao mesmo tempo agonia, não sabemos o que irá acontecer com a personagem agora. Ficamos imaginando se ela irá morrer, se ela irá sobreviver e ficar sofrendo ainda mais, se alguém irá chegar ou até mesmo se alguém irá chegar para socorrê-la.

41.   Plano americano contra-plongée com a água do chuveiro em primeiro plano e o assassino sai pela porta que está no meio do enquadramento.  A fill light aparece em equilíbrio com a key e a contra luz o que permite notar a figura de uma mulher de roupão e cabelos presos como autora do assassinato de Marion.

42.   Plano super detalhe da mão de Marion na parede escorregando como escorre a água do chuveiro. A mão vai saindo de quadro.

43.   Plano fechado de Marion de costas para a câmera olhando para a sua mão e ela vai escorregando para o chão conforme a água vai caindo. A iluminação ressalta que seu rosto está se difundindo com a parede, quase morrendo. Ela vira para frente da câmera e a vemos no canto direito, escorregando. A câmera acompanha o movimento. Seu rosto está disfarçado pela água que continua em primeiro plano.  Ela tenta esticar a mão como um sinal de ajuda e a câmera vai se afastando dela. Marion não morreu ainda, está sofrendo com os ferimentos e caindo na banheira, se retorcendo, enquanto a música nos causa a mesma sensação

44.   Plano detalhe de sua mão puxando a cortina da banheira.

45.   Plano aberto visto de cima da banheira, Marion puxa a cortina. Sua nudez é disfarçada pela constante queda da água.

46.   Plano detalhe do carrilho da cortina da banheira. Marion puxa a cortina que arrebenta. Vemos só os ganchos enquanto ela arranca.

47.   Plano detalhe do chão, a parte da frente do corpo de Marion aparece junto com a cortina. Ela cai no chão. Vemos seu cotovelo e parte da cabeça. O restante do corpo está coberto pela cortina. Enquanto isso a música vai abaixando e no exato momento em que a personagem cai morta e música para e só conseguimos ouvir o barulho da água caindo do chuveiro.

48.   Plano detalhe do chuveiro derrubando água. O silêncio é preenchido pelo barulho da água.

49.   Plano detalhe das pernas de Marion e a água escorrendo. A câmera movimenta conforme o sangue vai escoando e segue até o ralo. A câmera se aproxima do ralo e o preenche em todo o enquadramento.

50.   Primeira fusão da cena do ralo para plano detalhe do olho da personagem caída no chão. A câmera faz um movimento circular e vai se afastando do olho da personagem até mostrar seu rosto por completo e parte do chão.

51.   Plano fechado do chuveiro visto da lateral ainda ligado.

52.   Plano fechado dela deitada no chão. A câmera faz um pan para a direita indo até a porta.  Entra no quarto, passa pela cama e focaliza o jornal em cima do criado-mudo. Detalhes mostrados que mais tarde será um mistério a ser revelado pelos personagens.

A cena analisada nesse artigo, tal como o diretor do filme Psicose, Alfred Hitchcock, foi considerada um marco na história do cinema. Ele inaugurou um gênero que até hoje é copiado por muitos cineastas. Depois dos filmes dele apareceram outros utilizados sempre suas técnicas de construção do suspense. Por isso sua carreira e seus filmes podem ser considerados geniais e indispensáveis nos estudos cinematográficos.

O filme e a cena analisada são uns dos melhores que o cinema já teve, porque fizeram história. E até mesmo a trilha sonora é lembrada e utilizada até hoje quando se pretende dar a ideia de suspense ou causar um medo maior, chegando ao terror.  Em entrevista a Truffaut, Hitchcock fiz que acreditasse que o sucesso do filme se deu porque as pessoas são voyeurs por natureza, por isso ele gostava de brincar com enquadramentos, iluminação e a trilha para direcionar ou enganar o telespectador na medida em que ele queria. São poucos os diretores que hoje conseguem alcançar isso. Eis o legado de Alfred Hitchcock, o mestre do suspense.
Bibliografia

ARAÚJO, Inácio. Alfred Hitchcock: o mestre do medo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984

BRENER, Rosinha Ida Spiewak. A construção do suspense: a música nos filmes de Alfred Hitchcock. Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2001 (PUC-SP)

TRUFFAUT, François. Hitchcock, Truffaut entrevistas. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988

Leia a parte 3
Leia a parte 2
Leia a parte 1

Semana Hitchcock – Parte 3


A cena mais famosa do filme é chamada de cena do chuveiro. Ela tem apenas 45 segundos e 71 posições de câmera. Mas o suspense inicia alguns momentos antes, totalizando quase 4 minutos de tensão ao espectador.

A trilha é assinada por Bernard Herrman, compositor musical que teve uma parceria com Alfred Hitchcock de 1955 a 1966. A parceria foi importante uma vez que, nas palavras do diretor, a música de Herrman foi perfeita uma vez que ela teve a força para intensificar o suspense da cena. (A construção do suspense: a música nos filmes de Alfred Hitchcock).

Inicia com a personagem Marion sentada em uma cadeira em frente a uma escrivaninha. A trilha dá a impressão de que ela está fazendo algo de errado. Ela está tensa e não sabe muito bem o que fazer com aquele dinheiro.

A música causa certa inquietação, pois conseguimos imaginar como ela está se sentindo perdida e desorientada com a atitude que tomou. Vemos a personagem em plano médio com a iluminação lateral, causando uma pequena sombra da cabeça da personagem na cortina.

Logo em seguida, há um corte para plano detalhe dela anotando umas contas em um caderno Abaixo deste caderno, há uma folha de balancete de banco.

O plano volta a ser médio e a personagem rasga o papel. Levanta de sua mesa e em plano-sequência, ela caminha até o banheiro. Há um corte para a entrada do banheiro e em plano geral a personagem está de pé.

Corta para plano detalhe enquanto ela joga o papel na privada. A tensão da trilha aumenta quando a música para e ouvimos só o barulho dela se preparando para o banho.

Em plano fechado, vemos a partir de seus ombros, a vemosela dando descarga e fechando a porta do banheiro. Ela tira o robe em dois planos, ombros para cima e joelhos para baixo em um clima mais erótico.

Ela entra na banheira em pé e fecha a cortina. A partir daqui o plano é mais aberto e vemos sua sombra enquanto toma banho.  Enquanto isso só conseguimos ouvir os sons dos objetos de cena.

Nesse caso o silêncio na cena nos causa o suspense, dando um realce nas trilhas utilizadas antes e depois. Ficamos tentando imaginar o que virá a seguir e então quando vemos algo se aproximar da cortina do chuveiro que está fechada, ficamos ainda mais tensos. Dentro da banheira, conseguimos contar apenas 58 cortes.

Leia a parte 02
Leia a parte 01

Amanhã tem mais

Semana Hitchock – Parte 2


O filme Psicose longa foi lançado em 1960 e não foi um filme caro nas palavras do diretor. Dirigido e produzido por Alfred Hitchcock, foi criticado por não ter o roteiro como destaque, mas sim por ressaltar elementos que antes serviam como base para o cinema: montagem, iluminação e trilha sonora.

Psicose conta a história de Marion, uma mulher que podia ser considerada moderna quando comparada a mulheres que viviam na mesma época. Tinha relações frequentemente com um homem sem que fossem casados e trabalhava em uma imobiliária, quando um dia seu chefe pede a ela que deposite uma quantia alta de dinheiro no banco, mas Marion não o fez. Pegou alguns pertences e resolveu fugir.

No meio do caminho troca seu carro, talvez para não acharem ela tão facilmente. Chegando em um motel de beira de estrada, que ninguém ia há muito tempo, ela resolve se hospedar por uma noite. Encontra então Normam Bates, responsável pelo local. Os dois conversam bastante, tomam lanche juntos até o momento no qual ela se acomoda em um dos quartos.

Bates a espia por um buraquinho que dava da parede de seu escritório para o quarto em que ela estava. O dono do motel apresentava comportamento estranho, pois era dominado por sua mãe idosa, a misteriosa personagem que não aparece claramente até o final do filme.

Em seu quarto, Marion faz algumas contas com o dinheiro que tinha roubado e resolve tomar um banho. Tudo parece calmo até que alguém inesperadamente, que não conseguimos ver o rosto, entra no banheiro com uma faca e esfaqueia a loira até a morte. Esse é o grande mistério de todo o filme para os outros personagens envolvidos, o grande choque que o diretor conseguiu trazer a todos os espectadores.

No prefácio do livro “Hitchcock Truffaut, entrevistas”, Ismail Xavier destaca que o suspense do diretor é diferente do suspenses comuns, pois é psicológico, “apoiado na pura dimensão do olhar, quando o que parece ser uma configuração de rotina, a paisagem, a rua ou a casa de todo dia, de repente se revela uma anomalia, uma mancha, um ponto de incongruência que atiça a percepção e aguça as expectativas, suscita indagações” (p. 17) isto é claramente visto em Psicose, uma vez que Hitchcock desvia a atenção do espectador para saber se a moça será pega ou não e o assassinato dela é inesperado.

Ele causa isso com a demora das cenas iniciais e por frisar a importância dos 40 mil dólares e no final, o dinheiro é jogado junto com a moça e o carro no pântano. Ou seja, todos os detalhes mostrados no início despreparam o telespectador daquilo que está por vir. “Foi de propósito que matei a estrela, pois assim o crime era mais inesperado ainda”, diz o cineasta no mesmo livro durante a entrevista a Truffaut (pag. 275).

François Truffaut aponta que em Psicose, Hitchcock utilizou elementos de terror que normalmente não aparecem em seus filmes como a mansão velha, ambiente misterioso. Em contrapartida, Hitchcock justifica que este é um estilo gótico da Califórnia e como o filme se passa em Phoenix, essas características já estão presentes na cidade, mesmo se fosse uma comédia.

“Não iniciei o meu trabalho tencionando a reproduzir a atmosfera de um velho filme de terror da Universal, queria apenas ser autêntico. Ora não há a menor dúvida, a casa é uma reprodução fiel de uma casa verdadeira, e o motel também é uma cópia exata” responde o diretor na mesma entrevista. ( pg. 274).

Assim, é a forma como a mise-en-scene, posições de câmera, gestos e olhares dos personagens que irá revelar o fluxo subterrâneo de interesses e emoções, o que está além do que se expõe nos diálogos, explica Ismail Xavier.

Este estudioso diz que o cinema puro se dá quando a lógica das imagens e sons diz mais sobre a verdade dos comportamentos do que a superfície do enredo. “Em Psicose, o que me importa é a montagem dos fragmentos de filme, a fotografia, a trilha, sonora e tudo o que e puramente técnico. (…)Para mim é apaixonante utilizar a câmera a fim de desorientar o público”, aponta Alfred Hitchock ao falar sobre o filme com François Truffaut.

Veja parte 1

Amanhã tem a parte 03

Semana Hitchock


Mais uma vez realizei um trabalho com a Bruna Marques para a faculdade. Desta vez nos aventuramos em analisar a cena do chuveiro em Psicose, de Alfred Hitchock. Como o texto ficou gigante, decidi publicar aos poucos durante essa semana.

Vamos para a primeira parte?

O suspense no chuveiro de Hitchcok – parte 001

O objetivo deste artigo é observar como a cena do chuveiro em Psicose (Pshyco, 1960), do cineasta Alfred Hitchcock pode ser uma representação do modo como este cineasta cria o clima de suspense a partir da junção da montagem de cenas, iluminação e também trilha sonora.

Para realizar este trabalho, ousamos em analisar a cena a partir dos nossos conhecimentos sobre o diretor, filme, contexto histórico com base nos seguintes livros: “Alfred Hitchcock: o mestre do medo”, por Inácio Araújo, “Hitchcock Truffaut – Entrevistas, de François Truffaut e o doutorado de comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) realizado em 2001 por Rosinha Ida Spiewak Brener intitulado “A construção do suspense: a música nos filmes de Alfred Hitchcock”.

Sem contar o estudo e às referências dadas pelo professor Marco Vale durante o primeiro ano da faculdade de Rádio e TV na Cásper Líbero sob a disciplina Elementos da linguagem audiovisual (cinema) no ano de 2009.

Nascido em 1899 em Londres, Alfred Hitchcock ficou conhecido como “o mestre do medo”. Seu primeiro filme foi “The pleasure Garden” (1926), que tinha influências de Murnau, como por exemplo, a falsa perspectiva, algo que utilizou em muitos outros trabalhos ao longo de sua carreira.

Mas foi com “The Lodger”, que começou a firmar seu estilo como cineasta, o suspense, “(…) o primeiro filme de suspense, a invenção deste que é o único gênero essencialmente cinematográfico, e o início do que seria na verdade o seu estilo de filmar.” (ARAÚJO, Inácio, 1982, p.20).

Todos os recursos cinematográficos que utilizava em seus filmes tinham algum propósito. “(…) podemos ver que cada deslocamento de câmera, cada detalhe à primeira vista pode parecer insignificante, na verdade são o que realmente faz a respiração da obra” (idem, p.23).

Foi então a partir de 1956 que Hitchcock já contava com uma equipe fixa, entre essas pessoas estava a música Bernard Herrmann, que compôs as trilhas de três principais filmes da carreira do diretor: “Um corpo que cai” (1958), “Intriga Internacional” (1959) e “Psicose” (1960), um de seus filmes de maior sucesso.

Em Psicose, os movimentos de câmera, iluminação, enquadramentos e o que ficou mais conhecido no filme, a trilha sonora de Bernard Herrmann, são essenciais na construção do suspense.

“Se a introdução do som não era uma questão vital para o gênero, pelo menos só servia para enriquecê-lo: á música, a voz, os ruídos, os silêncios constituindo elementos tão importantes quanto a imagem” (ibidem, p. 35-36).

 

Amanhã tem mais =)

Dogville e a influência de Brecht


Mais um vez trago um trabalho que fiz com a Bruna Marques e Mayara Picoli para a Cásper Líbero. Desta vez, tínhamos que encontrar algum filme que apresentasse características do dramaturgo Bertolt Brecht e analisar como apareciam no cinema. Pois bem, escolhemos Dogville (2003), dirigido por Lars Von Trier.

Já vale lembrar que se você não gosta de spoilers,  pare de ler agora.

Antes de começar, confira o trailer do filme.

Quando o cinema nasceu com os irmãos Lumière, acreditava-se que ele servia pura e simplesmente para retratar a realidade. Com os planos gerais e câmeras fixas, víamos toda a ação acontecendo diante de nós como se fôssemos a quarta parede de uma sala, justamente como acontecia com o teatro clássico. Não demorou muito para que o cinema conseguisse a sua própria linguagem e inovasse com o passar do tempo.

O modelo clássico é o mais seguido e referenciado, assim como aconteceu no teatro. Cenários exuberantes, atores famosos e trilhas encantadoras nos fazem mergulhar de tal forma na tela que nem percebemos que tudo não passa de uma montagem de imagens que, unidas, fazem algum sentido. Às vezes até esquecemos dos planos e enquadramentos e nos vemos ali no meio da história.

Como Alfred Hitchcock já disse inúmeras vezes, o ser humano é voyeur e é isto que garante que as pessoas fiquem horas diante de uma tela sendo enfeitiçados pela história.  De certa forma, este encantamento também apareceu no teatro clássico. Mesmo com a distância da poltrona ao palco, somos engolidos pela fantasia de tal forma que pertencemos a ela.

O que vemos ali, no palco ou na tela, não chega a ser um retrato da realidade, como os criadores do cinema acreditavam, mas mesmo assim tendemos a acreditar que aquilo é real.

Entretanto, existiu um escritor e dramaturgo alemão que decidiu quebrar este paradigma de representação da realidade e nos lembrar constantatemente de que o que estamos vendo é uma peça de teatro: Bertolt Brecht. Para ilustrar as suas ideias, escolhemos o filme Dogville (2003), dirigido por Lars von Trier.

A maneira utilizada para filmar Dogville é o aspecto mais característico de Brecht. O filme foi rodado em um estúdio fechado e sem cenário, apenas com riscos desenhados no chão representando as casas e ruas do vilarejo. Até o cachorro é um desenho no chão, bem como a referência à cadeira de descanso e os arbustos, uma clara referência também ao cachimbo de Magritte.Isso já questiona se o que vemos é de fato a realidade ou uma representação dela.

No cinema e no teatro, isso nos faz lembrar que estamos assistindo a uma peça/filme e não que estamos vendo a história real.

Os atores circulam sobre a planta da cidade e atuam como se houvesse objetos invisíveis aos nossos olhos, sem paredes e portas, apenas com alguns móveis. É como uma criança que brinca de faz de conta e desenha uma casa no chão e passa a atuar nela como se fosse real.

A sonoplastia ajuda nossa imaginação quando a porta realmente faz barulho ao ser aberta pelos personagens.

Esta estética usada no filme mantém o espectador sempre ciente de que é uma representação da realidade. Todo filme foi gravado em um galpão da Suécia, o que remete ao teatro caixa preta de Brecht enquanto que a atuação dos atores com os objetos imaginários remete ao teatro do absurdo do dramaturgo.

Dogville é um pequeno vilarejo isolado no alto das montanhas e de difícil acesso. A história mostra a rotina sossegada dos poucos habitantes do lugar, cada um com suas manias e conformismo. Thomas Edson Jr. é o único personagem que não se conforma com a situação pacata das pessoas e promove reuniões moralistas para comunidade refletir sobre suas ações, com o intuito de promover o bem no mundo.

O nome Dogville significa vila do cão, mas em um sentido mais subjetivo, diz que os habitantes desta vila agem como cães por instinto uma vez que o contexto da Grande Depressão trouxe miséria a algumas cidades. Brecht ressaltava que as causas podem levar às consequências diferentes porque o ser humano é capaz de fazer escolhas, vê-se isso em Dogville pela submissão de Grace e depois pela vingança.

Baseada no distanciamento entre público e personagem proposto por Brecht, o filme trabalha a história como um componente para reflexão e didática, apresentando um caráter não-ilusório e colocando os espectadores fora de ação para interromper identificações.

As ações acontecem frente às câmeras e, simultaneamente, as outras casas e personagens são exibidas ao fundo, provocando estranheza para quem assiste, mas é a melhor maneira de interromper a ilusão e trazer reflexão, pois acentua momentos dramáticos.

A narração em “off” acentua ainda mais que se trata de uma história sendo contada ao público, assim com a divisão em capítulos, que se assemelha ao teatro e à história, ou seja, é  o narrador quem controla e da voz aos personagens. Brecht tinha um narrador que interrompia a ação e Von Trier também faz isso, comandando às vezes até a fala do personagem.

A principal característica encontrada no filme é a descontinuidade. Fica bem aparente como o diretor faz isso, pois coloca um letreiro informando o número do capítulo e o que irá acontecer, algo que é comum ao teatro Brechtiano. Enquanto muitos buscavam fazer as pessoas se sentirem no filme, Brecht fazia de tudo para que isso não acontecesse em suas peças.

No filme, apesar de seguir uma ordem cronológica dos fatos a divisão dos capítulos causa uma quebra, fazendo com que nos lembramos de que estamos assistindo a um filme. Nos momentos em que começamos a nos acostumar e ficamos compenetrados, os letreiros aparecem fazendo-nos lembrar de que aquilo não é real, é apenas uma história.

Por mais que os cenários não sejam comuns, chega a certo ponto no filme em que nos esquecemos disso, o cenário fica algo insignificante e nos tornamos atraídos pela narrativa. Quando aparece o número do capítulo, nossa concentração acaba por um momento e voltamos à realidade.

Devido a sua experiência de vida, Brecht adquiriu uma posição de luta pelos oprimidos, retratava de forma cênica as diferenças entre classes sociais e a injustiça do mundo. Podemos identificar essa estética na obra “O círculo de giz caucasiano”, onde a protagonista Grucha luta por Miguel, o menino de sangue real abandonado, o qual ela salvou da guerra e adotou com filho.

Nesta peça, Brecht representa as diferenças entre ricos e pobres e o caráter social deles. Ele sempre abordou temas que pudessem ser reconhecidos pelos espectadores e que trouxessem subjetividade.

Já notamos semelhanças entre o livro e o filme. A primeira referência se dá que o primeiro trata da situação das pessoas durante a Revolução Russa e o segundo da Grande Depressão. De certa forma, Von Trier e Brecht abordam a reação das pessoas simples diante de eventos de grande magnitude nos quais eles só fazem parte do cenário e não possuem voz ativa.

Em relação às personagens, há certa semelhança entre a personagem Grucha do livro “O círculo de giz caucasiano de Brecht” e Grace do filme “Dogville”. As duas estão durante toda a história fugindo de alguém. A diferença é que com Grucha conseguimos saber de quem e o motivo de sua fuga, já com Grace sabemos de quem ela foge, mas o porquê permanece um mistério durante todo o filme.

Ela chega à pequena cidade e começa a ajudar a todos, querendo ser agradável e permanecer por lá, enquanto Grucha ajuda o menino, vê que ele não seria bem tratado se continuasse com a verdadeira mãe e então foge com ele. Por mais que existam diferenças significantes em cada uma, a maneira como estão se preocupando com o outro cria uma semelhança entre as personagens.

Outro aspecto é que nas duas histórias há julgamentos em que nem sempre o que todos dizem ser o certo acontece. Em Dogville, primeiro Grace é julgada para que fique na cidade e as pessoas concordam mesmo sabendo que ela é uma fugitiva.

Depois, no final do filme ela julga as pessoas que maltrataram ela, matando todos e pensando que será melhor assim, não só para ela como para toda a humanidade eliminar aquela cidade, para que outros não sintam o mesmo que ela sentiu quando chegou.

No livro de Brecht o juiz impõe o veredicto que pensa ser o certo para ele, não de acordo com o que a humanidade e nossos costumes dizem ser o certo.

Quando resolve que o menino irá ficar com Grucha, por exemplo, o certo é que ele devesse ficar com a mãe verdadeira, mas o juiz acredita que Grucha fará o melhor por ele já que passou por tantas dificuldades e não puxou os braços dele no momento em que estava sendo julgada.

O cenário também dá a ideia do teatro. Na verdade não é o clássico cenário para cinema, mas  é como se fosse uma maquete do que seria o cenário. O fato de toda a história acontecer em um mesmo local, lembra uma peça teatral, na qual os personagens que saem da cidade ou até mesmo aqueles chegam, só aparecem no momento em que estão nela realmente.

Não conseguimos saber o que acontece fora de Dogville. Até mesmo na cena em que Grace tenta fugir, só conseguimos ver ela deitada na traseira da carreta, e ela falando o quanto está andando, temos apenas a impressão de que ela saiu e está se deslocando, mas em nenhum momento vemos isso realmente.

Mas por que Lars von Trier seguiu as ideias de Bertold Brecht? Porque ele fazia parte do Dogma 95, movimento cinematográfico revolucionário que exigia não usar cenários, nem trilhas sonoras e a câmera deve estar sempre nos ombros do cineasta. Isto explica os movimentos bruscos com a câmera, imagens meio tremidas e cortes descontínuos.

Entretanto, Von Trier usa iluminação artificial, gruas para as tomadas do alto e de certa forma possui cenografia, mesmo que não seja exuberante, e isso contraria os princípios do manifesto ao mesmo tempo em que vai ao encontro às ideias de Brecht.

Tudo isso para reforçar que estamos vendo uma representação da verdade como um faz de conta, assim como você está lendo um recorte do filme analisado a partir de dramaturgo, o que significa questionar: este texto é real? Ou uma representação dele? Será que deveríamos ter cortado ele, colorido e feito diversas coisas estranhas para você lembrar que está lendo isto? Brecth e Lars von Trier teriam feito, certeza.

Coração de tinta, 2009


Quando eu era pequena lia muitos livros de contos de fadas e histórias apropriadas para a minha idade, mas não me lembro de ter os meus pais lendo alguma dessas histórias em voz alta.

Não vejo isso como um problema, afinal eu despertei assim a vontade de ler e percebi desde cedo que cada um lê uma história de um jeito, com entonações e criação da figura dos personagens na cabeça à sua maneira.

Assistir “Coração de tinta”, com Brendan Fraser é como experimentar a nossa leitura se tornando realidade. No filme, Mortimer é um língua de prata, pessoa capaz de transformar a história em realidade quando a lê em voz alta.

Sem saber deste dom, ele lê uma história para sua filha e sua mulher acaba ficando presa dentro do livro enquanto que alguns personagens saltam para a realidade e atormentam o rapaz.

O enredo mostra a saga de Fraser atrás de uma cópia deste livro para tentar resgatar a sua mulher. Infelizmente, a história pouco abusa dos efeitos especiais que poderia ter e acaba ficando meio sem sal e sem açúcar já que o roteiro não se segura. Destaque da atuação para Dedo Empoeirado e Maggie, filha do personagem principal.

A trilha agrada, mas de nada adianta uma super trilha se as imagens não correspondem a emoção das notas emitidas. Só sei de uma coisa: ainda bem que assisti a este longa em casa…ficaria muito brava em gastar dinheiro no cinema. Mas tudo bem, valeu a tentativa de imaginar como seria ver os personagens dos livros que já li bem na minha cara.

Shrek chega ao capítulo final (?)


E a saga “Shrek” chega ao fim, aparentemente. Estreou nesta sexta-feira o capítulo final da série que tira sarro dos contos de fadas e foi com grande expectativa que fui ao cinema conferir meu ogro favorito.

Mas, tive uma pequena decepção. Shrek para mim era um grande tirador de sarro das histórias infantis e a cada episódio havia um mix de paródias dessas histórias regado a muitas piadas e bom humor. Desta vez foi diferente. Fomos literalmente introduzidos ao conto de Rumpelstiltskin, aquele duende que faz o acordo com a princesa: ele promete transformá-la em rainha se ela der o seu primeiro filho a ele.  A recisão do contrato era advinhar o nome dele tão complicado. Está lembrado?
Veja o vídeo abaixo da série “Contos de fada” da TV Cultura.


Pois é, desta vez o conto manteve as suas características na animação da DreamWorks, quase sem pitadas de risada. Shrek está entediado por não ser mais temido pelos aldeões. Juntando a isso, vem a rotina de cuidar dos seus trigêmeos. Cansado de tudo isso, assina um acordo com Rumpelstiltskin, que lhe promete um dia de ogro.

Aqui começa a trama. Todos estão diferentes, Burro não conhece Shrek, mas continua cantarolando, o Gato está mais gordo do que nunca e a Fiona é uma ogra revolucionária que tenta, junto com outros ogros, derrubar o reino de Rumpelstiltskin. Como todo vilão, Rumpelstiltskin faz de tudo para que Shrek não cumpra a recisão do contrato que, no caso, é o beijo do verdadeiro amor.

“Shrek para sempre” ficou parecendo um desenho cheio de “moral da história”com apenas alguns momentos engraçados garantidos pelo Gato de Botas e o Burro. Se esta foi a real despedida da animação, deixou muito a desejar.  Não vi a cópia em 3D, mas acho que nem isso salva o roteiro fraco do capítulo final.

Veja trailers


Uma opinião sobre “Eclipse”


ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS

Ontem eu fui assistir  “Eclipse”, terceiro filme da Saga Crepúsculo.  Estava empolgada porque muita gente que detesta a série dizia ser o melhor até agora. Sem contar que fãs enlouquecidas compraram mais de 90 mil ingressos antecipados para ver a pré-estreia  às 0h00 do dia 30 de junho.  Até pensava que não seria possível assistir neste final de semana.

Mas como metade das salas do cinema que freqüento estava oferecendo o longa, consegui. Compramos pela internet para evitar demoras, jantamos e momentos antes fomos para a fila que já se formava na frente da sala.

O filme começa com uma sacada boa que não tem no livro. Grande mérito do roteirista.  Logo de cara sabemos como Riley foi transformado em vampiro. Este personagem até ganha um destaque que não havia no livro. Conhecemos seus pais e como Charlie, pai da Bella, fica preocupado com o desaparecimento do jovem rapaz.  Mas a parte surpreendente acaba aqui.  O logo da saga aparece e tudo começa a desmoronar.

Uma das milhares cenas de amor entre Bella e Edward

Não culpo o diretor, culpo o responsável pela montagem do filme. Isto porque em quase todas as cenas de diálogo os cortes de plano e contra-plano estão MUITO, mas MUITO mal feitos. A não ser que a ideia original fosse que a gente não visse o personagem que fala e somente aquele que está ouvindo.

Um exemplo, uma cena super delicada e engraçada entre Bella e seu pai na cozinha. Charlie tenta iniciar uma conversa sobre sexo seguro com sua filha. No livro, dá para sentir a tensão, mas na telona a cena fica esquisita. Quando Charlie está falando, só vemos a cara da Bella e vice-versa. Ainda mais quando ela anuncia que é virgem. O plano nela tem 1 segundo e já corta para um plano geral dela correndo para a escada. Aquilo me incomodou, pois em todo filme os planos e movimentações de câmera fazem com que a gente se sinta dentro do filme, como um figurante.  Basta lembrar da primeira vez em que Jacob aparece na tela: câmeras meio tremidas, planos curtos e em detalhes. E bem nesta da cozinha, há um corte brusco que nos distancia.

Os Cullen se preparando para lutar contra os recém-criados

O mesmo ocorre com a luta entre lobos, vampiros e os recém-criados. A cena de luta de Neo e Smith em Matrix, ganha de dez a zero.  Acho que aqui houve um abuso da tecnologia, é tudo tão rápido que não dá para entender muito. Só vemos borrões. Em Matrix, havia bons planos das reações dos personagens.  Mas a tecnologia teve seu lado bom sim. Os lobos foram muito bem feitos. Os pêlos são tão incríveis quanto os de Sully, em Monstros  S.A.

Voltando à montagem, enquanto eu assistia ao filme surgiu uma dúvida: será que quem não leu o livro está entendendo alguma coisa? Para quem não leu: quando Bella diz: “Sou a Suíça”, faz algum sentido para você? Se você leu o livro, faz.

No desespero de comprimir a história em algumas horas fez com que o filme perdesse a continuidade. Está tudo jogado.  Uma montagem bem esquisita e diferente dos outros longas da série.

Aqui me atrevo a fazer outra comparação: Eclipse é fantástico na direção de arte, os cenários estão lindos, atores mais preparados e o filme mais sombrio como no livro, mas como fã da série, Catherine Hardwick foi , para mim, mais fiel à adaptação. Com orçamento baixíssimo, o filme com certeza respeitou muito mais coisa que Eclipse.

Mas isso vai de gosto de cada um. É inegável dizer que a série tomou grandes proporções e deixou muitos cinéfilos e críticos de cinema bravos por uma história tão mamão com açúcar e com atores quase sem experiência ser aceita pelo público.  Dá vontade de rir. Sério. Falem bem, falem mal…mas tudo mundo está falando de “Eclipse”.

Eu poderia escrever muito mais coisa neste post, mas vou aguardar o resultado dele. Se rolar diálogo, escrevo mais.

Stupeur et tremblements – Vous parlez français?


J´ai lu pour l´alliance française

Pour moi, la lecture d’un livre est comme vous inviter même à aller au cinéma. Mon imagination est capable de donner de la vie et de la forme à l’expression écrite par chaque auteur et par conséquent, il semble un film que seulement moi a vu.

Le film “stupeur et tremblements” a été un choc pour moi. C’était presque comme tout ce que j’avais imaginé. Sauf pour le personnage Fubuki, parce que je pensais qu’elle était plus belle. La séquence du filme a été fidèle à celle du livre et que, contrairement à la plupart des films, c’était plutôt bien. L’actrice qui a joué Amélie a réussi à donner de la grâce et l’innocence décrite par l’auteur et je vous avoue que je me suis sentie sur sa peau. Je me voyais en marchant dans une société japonaise et j’imaginais comment je réagirais avec tant de règles. Bien que beaucoup de gens pensent qu´il s´agiit de préjugés, mais je crois que le film montre un stéréotype du Japonais clairement, sansdes idées préconçues.

Certes, ce film a subi à ma liste de favoris et je suis encore plus heureuse d´avoir compris tout ce que l´on a parlé, sans avoir à recourir au sous titre, qui était aussi en français. Il a été une très bonne expérience.

Je vous indique de lire le livre et ensuite voir le film, la seule façon de comprendre l’horreur drôle publiés dans les yeux bleus d’Amélie dans la scène de salle de bains.

Voir le “trailer”

pagando a língua #eclipse


No dia 26 de abril eu fiz um post falando que a Summit estava tranquila em relação a publicidade do filme “Eclipse”, terceiro longa da Saga Crepúsculo que estreia dia 30 de junho. Mas o tempo foi passando e eis que várias cenas estão sendo divulgadas o que significa que a estratégia de marketing envolvida no “Lua Nova”, segundo da série, deu certo e resolveram apostar novamente. Ou seja, “engoli a minha língua” hehhe

Segue as novas cenas

Este aparece a mãe da Bella

Divulgada no MTV movie awards em 06 de junho.

“Eclipse” – cena liberada


Hum…dia 26 de abril eu escrevi um post falando que a Summit estava bem “calminha”com relação a publicidade do filme “Eclispe” da “Saga Crepúsculo”. Estava indo tudo bem, os atores conseguiam chamar a atenção ainda mais com o “bafafá” dos coadjuvantes em pedir aumento no cachê para gravar “Amanhecer”, último livro de Stephenie Meyer.

Porém, a maré foi baixando e os acessos ao making of e os dois trailers no youtube não aumentaram mais de forma astrônomica como vinha acontecendo. E o que aparece hoje? Uma nova cena é liberada, só que desta vez o trio queridinho não está nela. Vemos os Volturi e a Dakota Fanning que até ontem era uma menininha.

A pergunta que fica é: será que seremos bombardeados com novas cenas até o dia 30 de junho? Hum…tem gente que não reclamaria.

Segue vídeo – Pra quem não gosta de spoilers, não veja.

Fonte: Twilight disorder

Mais cenas da Oprah
http://www.youtube.com/watch?v=QY8lvjQJFwo%5D

Spot de TV em 17 de maio de 2010

Novo trailer de “Eclipse”: e a Summit volta com suas jogadas de marketing!


Poster 02 do filme "Eclipse"

Na sexta-feira foi transmitido no programa Oprah a segunda (e última?) versão do trailer de Eclipse, da Saga Crepúsculo. Até aí não é novidade já que o filme estreia dia 30 de junho. Mas o que mais me intrigou é a diferença da campanha de marketing da produtora Summit com o filme anterior, Lua Nova.Foram inúmeras as cenas liberadas no youtube e os diversos trailer meses antes da première. Confesso que até cansou um pouco e ao assistir o longa no cinema, quase não houve surpresas..tudo já estava na internet.

Por que será que houve mudança? Eu tenho um palpite. Nem toda sequência de um filme faz sucesso. Lógico que há exceções como a trilogia “O senhor dos anéis” , que foi filmada toda de uma vez e dividida só depois, Harry Potter que tem sete livros e o saldo final será de oito longas, “Piratas do Caribe” etc, mas há grandes fiascos como “Efeito Borboleta” e “Premonição”. Para mim seria esse o motivo da exaustiva campanha de Lua Nova: garantir a fidelidade dos fãs de Crepúsculo e atiçar novos seguidores que desejam uma mordida de Edward.

O resultado foi algo surreal. Enquanto “Crepúsculo” faturou US$ 250 milhões, “Lua Nova”passou de US$ 700 milhões. Agora que os fãs já estão enlouquecidos e aguardam ansiosos a estreia, os tabloides investem no “namoro”entre os protagonistas e atiçam para a polêmica da quarta adaptação. Será que “Amanhecer” será dividido como Harry Potter? Não sabemos ainda, por enquanto só acompanho o que vem sendo publico a respeito desta febre.

“Na continuação de “Lua Nova”, Bella Swan precisa enfrentar as consequências de ser amiga do lobisomem Jacob Black e namorada do vampiro Edward Cullen. Ao mesmo tempo, a moça se vê aterrorizada por uma misteriosa onda de assassinatos em Seattle e o fato de estar sendo perseguida por uma maligna vampira. Baseado no terceiro livro da série iniciada em “Crepúsculo”.” (fonte: cinema em cena)

A primeira coisa que apareceu foi um teaser de 10 segundos do trailer 10 segundos liberados do trailer:

Dias depois, saiu o trailer completo trailer 01

O que mais me chamou a atenção, foi uma fã (medo dela) ter filmado a sua reação quando o primeiro trailer de “Eclipse” caiu na rede. Fã enlouquecida:

Pouco tempo depois, uma cena é liberada:

E na sexta-feira, o novo trailer Trailer 02:

Pra quem ainda não viu, o dvd de “Lua Nova” traz os bastidores de “Eclipse”:

Confesso que fiquei mais encantada com o primeiro trailer por causa da música e da fotografia. O segundo já entrega muito coisa, perde um pouco da surpresa. Mas a questão que fica é: será que este foi o último trailer antes da estreia? Posso estar enganada…quem sabe quando se aproximar da data não aconteça outro bombardeio?? Eclipse ocorre raramente, mas a publicidade…. Temos que aguardar só.

Show de risada com John Travolta e Robin Williams


É quase impossível não pensar em “Grease – Nos tempos da brilhantina” quando vejo que John Travolta vai à tela dos cinemas. O mesmo ocorre com Robin Williams que ganhou minha admiração com “Jumanji” (1991), “Flubber” (1997) e “O homem bicentenário”(1999). Desta vez os dois aparecem juntos em “Surpresa em dobro”(Old dog, 2010).

Dirigido por Walter Becker o longa é uma comédia sobre dois amigos de infância, Charlie (John Travolta) e Dan (Robin Williams), sócios de uma grande empresa de marketing que passam por uma reviravolta ao terem que cuidar de gêmeos de sete anos de idade.

Os dois já estão velhinhos e foi bem bacana ver que uma das piadas foi essa: a idade dos (ex)galãs. As cenas mais engraçadas são a da troca das pílulas e a invasão da área do gorila (cenas que você pode ver no trailer abaixo).

A história é simples, previsível e ideal para acalmar as crianças dentro do cinema – em breve um típico filme de sessão da tarde. É da Disney, tá explicado, mas para os adultos vale a expressão corporal de Robin Williams. O vovô tá bem engraçado, dá para dar boas risadas.

Um comentário sobre “Como treinar o seu dragão”


Soluço e Banguela em "Como treinar o seu dragão"

Uma história aparentemente tosquinha surpreende nos diálogos, ou ausência deles, e na montagem. “Como treinar o seu dragão” é uma adaptação do livro “How to train your dragon” de Cressida Cowell e  conta a história do desajeitado Soluço, filho de um grande Viking.  Eles moram numa aldeia que vive sendo atacada por dragões e a função destes vikings é exterminar todos.

Ao contrário dos jovens da sua idade, Soluço é franzinho e não tem aptidão para lutar contra dragões, mas tem sede de provar suas habilidades. Numa dessas, inventa uma catapulta para capturar as feras e, por acaso, consegue prender aquele que todos temem: Fúria da noite, o dragão que só aparece à noite e destrói tudo que vê pela frente. Incapaz de matá-lo, Soluço o liberta e a partir daqui a animação ganha ritmo.

Os planos são mais curtos e a montagem bem surpreendente. Mas pra mim, o melhor de tudo foi a expressão do Banguela, nome dado ao Fúria da noite. Fiquei encantadíssima a observar como a computação gráfica vai além do esperado e consegue passar emoções que nenhum diálogo passaria. Aliás, diálogo verbal entre o menino e o dragão não existe, mas você entende perfeitamente tudo que está acontecendo.

Os diretores Dean DeBlois e Chris Sanders usaram muito bem a montagem paralela entre o crescimento do relacionamento do menino e do dragão e o treinamento de Soluço como viking.  “Como treinar o seu dragão”é uma animação da Dreamworks e na mesma linha de Kung Fu Panda e Espanta Tubarões traz uma moral da história. Neste caso, trata-se de não julgar aquele que você não conhece.

Não sou nenhuma cinéfila, mas este filme encantou tanto que resolvi falar dele aqui. Se interessou?  Dá uma olhada no trailer. A animação ainda está passando no IMAX e nos principais cinemas.

Ficha Técnica
Título Original: How to train your Dragon
Direção: Chris Sanders & Dean Deblois
Roteiro: Will Davies, Chris Sanders, Dean Deblois
Adaptado da obra de: Cressida Cowell
Elenco: Jay Baruchel, Gerard Butler, Craig Ferguson, America Ferrera, Jonah Hill, Christopher Mintz-Plasse, T.J. Miller
Produção: Bonnie Arnold
Produção Executiva: Kristine Belson, Tim Johnson
Direção de Arte: Pierre-Oliver Vincent
Supervisor de Efeitos Visuais: Craig Ring
Chefe de História: Alessandro Carloni
Chefe de Animação de Personagens: Simon Otto
Supervisor Estereoscópico: Phil McNally
Chefe de Efeitos: Matt Baer

A única coisa permanente no universo é a mudança


Este post inicia com uma frase de Heráclito (540 a.C.- 470 a.C.) para apresentar uma análise do filme “Efeito Borboleta” (2004) e a obra deste filósofo. Veja o trailer do filme.

Esta análise partiu de um trabalho de filosofia realizado em 2008. Para variar, escrevi ele com a Bruna Marques.

ATENÇÃO: ESTE TEXTO TEM SPOILERS

As pessoas que dizem desgostar de filosofia o fazem porque não entendem o pensamento expressado muitas vezes em palavras incompreensíveis ao vocabulário cotidiano do século XXI, mas também é comum encontrar diversos filmes chamados Blockbuster´s, que vendem muito e que na maioria das vezes tem seus roteiros baseados em filósofos supostamente desconhecidos para elas em razão da falta de interesse.

Um deles é Efeito Borboleta, cujo título original em inglês é Butterfly Effect. Lançado em 2004, foi dirigido e roteirizado por Eric Bress e J. Mackye Gruber. Com o protagonista representado por um dos atores juvenis mais cobiçados da época, Ashton Kutcher, o filme teve grande divulgação e multidões assistiram à história de um rapaz que, assim como seu pai, quando criança tinha surtos de falta de memória -blackouts, como chamado no filme. Em algumas cenas, esse problema do garoto causa os diversos pontos de virada observados na montagem.

Ao ficar mais velho, Evan, o personagem principal, percebe que ao ler os seus diários ele é capaz de voltar ao passado, especialmente naqueles momentos em que ele não se lembra, mas com um detalhe: ele recorda o que teria acontecido durante os blackouts. Surpreso, procura seus amigos de infância para ver se aquela visão era real. Porém, ele deixa os outros personagens atormentados causando até o suicídio de Kayleigh, personagem pela qual foi apaixonado por toda a sua infância.

Aqui começa o desenrolar da história. Assustado, ele tenta reler alguns de seus cadernos para tentar evitar o suicídio de Kayleigh e assim começa a mudar o seu passado. O grande problema é que nada permanece. Qualquer nova decisão que ele toma em seu passado deflagra nas consequências mais diversas.

Heráclito

É aqui que nos atrevemos a comparar o filme com o pensamento do pré-socrático Heráclito (540 a.C a 470 a.C) começando com uma citação retirada do livro “Convite a filosofia” de Marilena Chauí: “O mundo, dizia Heráclito, é um fluxo perpétuo onde nada permanece idêntico a si mesmo, mas tudo se transforma no seu contrário. A luta é a harmonia dos contrários, responsável pela ordem racional do universo. A nossa experiência sensorial percebe o mundo como se tudo fosse estável e permanente, mas o pensamento sabe que nada permanece. Para Heráclito tudo se torna contrário de si mesmo. O logos é a mudança e a contradição.”

É exatamente isso que ocorre com Evan. A cada mudança, por mínima que seja, causa uma contradição, quando ele decide voltar ao seu passado. Ele resolve um de seus problemas, mas outros surgem, ainda mais complexos de se entenderem e mais difíceis de serem resolvidos. Até Evan muda,não em sua relação sentimental com as pessoas que ele sempre amou, mas sim em seus gostos e sua maneira de levar a vida.  Por isso a cada nova situação vemos uma nova personalidade que ele demora a compreender e também percebe que as pessoas ao seu redor sofrem influências dessas reviravoltas. Enfim, ele está em constante metamorfose, como qualquer outro elemento da natureza.

Mais uma vez nos utilizamos de um exemplo da teoria de Heráclito. Evan seria o rio modificado, ou seja, ele nunca é o mesmo, pois “nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos”.O filósofo ainda avisou em seus excertos que os humanos devem sempre esperar e reencontrar o inesperado, pois “a incredulidade pura e simples denota um espírito obtuso e fechado ao enigma do mundo”. Pelo filme, vemos que o personagem desconhece essa teoria.

Outra questão observada no filme é que ele constantemente se refere ao tempo. Mas o que é o tempo? Para Heráclito o conceito de tempo é abstrato e existe a partir dos opostos. Ele é e não é, e está posto numa unidade e, ao mesmo tempo, está separado, ou seja, é abstrata contemplação da mudança já que o conceito de passado, futuro e presente foi convencionado, foi o ser humano que deu sentido e significado ao tempo.

Para Evan, voltar ao tempo passado era uma oportunidade de “reparar” alguns detalhes de sua vida, mas ao interferir no que foi feito, ele muda o seu presente sendo que as consequências dependerão das suas novas escolhas ao voltar ao passado, pois cada mudança que é feita, por mínima que seja, interfere em muitas outras coisas. O nome do filme explica exatamente isto. O efeito borboleta remete a teoria do caos, citada no início do filme. Este efeito foi analisado pela primeira vez em 1963 por Edward Lorenz. Esta teoria diz que o simples bater de uma asa de borboleta poderia mudar o curso natural das coisas podendo até causar um terremoto do outro lado do mundo. Mas há cientistas que dizem que o formato dos gráficos analisados quando há movimentos caóticos é de uma borboleta.

Se a borboleta influencia um terremoto ou se é mera ilustração gráfica não sabemos. O que importa é que dentro dessas duas explicações pode-se analisar o filme e a teoria de Heráclito.  A cada novo “bater de asas” do personagem, sua vida inteira sofre um terremoto e a cada “bater de asas” da própria borboleta, sua essência também muda porque de acordo com Heráclito, a única coisa que permanece no universo é a mudança.

Em oposição, podemos comparar o filme com os pensamentos de outro pré-socrático Parmênides (530 a.C. a 460 a.C.), que sustenta a idéia contrária a de Heráclito. Esse filósofo diz que a mudança é algo criado no mundo dos sentidos e que é ilusório.
Ao contrário de Heráclito que afirma que “tudo muda”, Parmênides diz que “nada muda”. Assim, por mais que suas águas mudem de posição, um rio será sempre o mesmo rio. E no filme “Efeito Borboleta” também se pode enxergar isso. Por mais que as situações mudassem, a essência de Evan, ou seja, seus sentimentos e princípios sempre continuavam os mesmos.

E o que você acha de tudo isso? Comente abaixo.

Lolita ganha vida na adaptação de Stanley Kubrick*


Atenção: ESTE TEXTO TEM SPOILERS

É muito comum as pessoas assistirem a um filme adaptado de romance e dizerem que não gostaram. Obviamente há uma grande diferença entre as linguagens visual e literária e é necessário entendê-las para apreciá-las. Este é o caso de Lolita, de Vladimir Nabokov, lançado em 1955, e o filme homônimo de Kubrick, de 1967.  Apesar das diferenças, os enredos tratam da mesma história: um intelectual europeu de meia-idade envolvido em assassinato e ninfolepsia, um grande escândalo para os anos 50.

No livro, a narrativa é construída por meio das recordações do narrador-personagem em primeira pessoa. Em razão disso,  a versão  é altamente duvidosa porque só se conhece os fatos e os outros personagens a partir do seu ponto de vista, logo é necessário ler nas entrelinhas. É uma confissão totalmente solipsista, porque ele justifica todas as suas ações e extrapola no egoísmo, já que não pensa em ninguém além de si mesmo e nunca dá voz aos outros personagens. O resultado é uma obra literária cheia de armadilhas, pois usa um estilo elegante para falar de coisas escabrosas, como pedofilia.

O autor pega temas chocantes e os coloca com uma tal complexidade que é provável que muitos leitores deixem de sentir repugnância e passem até a simpatizar com o personagem. Isso é reflexo da escolha das palavras utilizadas por Nabokov que, apesar de simples, são trabalhadas como as pedras preciosas tratadas pelos ourives. O texto é rico em metáforas, apresenta descrições claras que geram a sensação de estar assistindo a um filme, até o leitor lembrar que se trata de um livro. Além disso, muitas passagens são verdadeiros poemas em prosa, o que o torna encantador.

Os personagens são espelho da sociedade dos anos 50. Humbert, o narrador – personagem, um intelectual europeu de meia-idade que viaja à Ramsdale para ser professor em uma universidade e apaixona-se por Lolita, uma menina de 12 anos que adora história em quadrinhos e desdenha os filmes estrangeiros. Há também Charlotte, mãe da garota, uma típica americana de classe média que acredita ser culta por consumir tudo o que vem da Europa, pintura, frases em francês, empregados negros, religiosidade exagerada, inclusive Humbert. O protagonista vive um “romance” com Lolita, mas, após várias ameaças, acaba perdendo-a, levando a estória a um desfecho trágico.

Chama a atenção o fato de o narrador escrever de dentro de uma prisão porque matou um homem – iremos descobrir mais tarde o motivo -, por ser a historia de um encontro entre o Velho, Humbert, e o Novo Mundo, a menina. O casamento com Charlotte serve para ele ficar mais próximo de Lolita, mas a morte da esposa no momento em que ela descobre as intenções do marido cria uma situação que é um tabu pouco explorado pela literatura séria.  O enredo resultou em duas adaptações para o cinema, uma em 1962, dirigida por Stanley Kubrick, analisada neste trabalho, e a outra em 1997, por Adrian Lyne.

Vale a pena ressaltar a harmonia existente no filme, ou seja, a normalização no relacionamento entre Humbert e Lolita. Destoa do roteiro original porque no romance de Nabokov não tem nada que possa ser inserido nos padrões de um “namoro comum”. Kubrick retirou as cenas de sexo – na película há só a intenção implícita por meio dos cochichos da menina ou através dos cortes subjetivos da câmera- e o motivo seria a censura. Tudo porque na época em que “Lolita” foi filmado, a sociedade estava impregnada por  valores morais muito fortes. Se este assunto era delicado para o final dos anos 60, imagine-se quando Lolita foi escrito. O livro foi considerado pornográfico e o autor encontrou dificuldade para publicá-lo. Para evitar o mesmo destino, Kubrick encontrou outras saídas que, para quem não leu o livro, não prejudicassem o entendimento do filme.

Outra diferença na adaptação foi a omissão do narrador, pois no livro este é um papel fundamental, uma vez que o leitor é duvida da sinceridade de Humbert, enquanto que, no filme, o espectador é “levado pela mão”, quase sem chances de desconfiar de sua integridade. E os quatro momentos em que aparece voz over são de caráter informativo, como explicar para onde estavam indo após um corte temporal feito pela câmera, ou dizer que o casamento com Charlotte aconteceu, sem precisar mostrá-lo,  e isto prejudica o brilho da obra, porque a história deixa de parecer a versão de Humbert e se torna uma realidade quase incontestável sob o ponto de vista do espectador.

Apesar disso, a obra cinematográfica tenta uma aproximação ao enredo original quando Stanley Kubrick opta por uma narrativa circular. Assim como no livro, sabe-se o final do filme a partir das cenas iniciais. Isso introduziu um novo olhar para Humbert, o de assassino. Desta vez sabe-se o nome da vítima do crime, Clare Quilty, mas não o motivo. Esta inversão do enredoo é o mote do filme, cuja construção foi feita para que seja descoberto o motivo do crime.

O personagem Quilty ganhou destaque e passou a ser a voz dissonante na narrativa, dando vida ao filme. Assim como em William Wilson, de Edgar Allan Poe, ele pode ser Humbert Humbert, quando analisado pela psicanálise.

O brilho do filme está no fato de que não é possível suprimir os outros personagens, como Charlotte e Lolita, pois elas aparecem de “carne e osso” na tela e falam, mantendo as personalidades descritas no romance pelo escritor. Também foram reproduzidos muito dos diálogos, mas em razão do tempo fílmico e da pouca importância na história original, alguns personagens foram retirados, sem comprometer o entendimento. Com exceção de Lolita, que teve que ser mais velha por causa da censura, a caracterização dos personagens foi fiel ao livro.

A música tem um papel interessante, pois marca o ritmo daquela sociedade que vivia com poucas mudanças estruturais em seu dia a dia. A mesma trilha se repete ao longo do filme inteiro, assim como o comportamento das personagens. Ela só muda quando há mudança de curso. A fotografia e a luminosidade auxiliam para a construção do clima, com predominância de luzes “chapadas”, como se fosse para o espectador se concentrar na atuação, principalmente na cena do assassinato de Quilty. Nota-se que ela é expressionista pelo desempenho do ator e não pela luz, como era comum neste tipo de vanguarda cinematográfica.

Os movimentos de câmera vão por esse mesmo caminho, mas com algumas particularidades quando, por exemplo, mostram os olhares dos personagens, como as cenas de “voyeur” de Humbert, chamada de câmera subjetiva.  Os enquadramentos facilitaram a interpretação da ocorrência das relações sexuais e a enganar o moralismo do público.

Além disso, o diretor mostra, por meio de travellings e longos planos-sequência, casas, cômodos, objetos, roupas e penteados, festas e comportamento dos personagens desta sociedade ritmada de forma um tanto humorística.  O humor está presente em diversas cenas, como a armação do catre no quarto do hotel, a fala acelerada de Quilty e a repetição da palavra “normal”, quando este encontra Humbert pela primeira vez após a fuga de Ramsdale, e as piadas eróticas de duplo sentido, como as brincadeiras de Lolita no acampamento.

O que importa ressaltar é que Lolita, de Vladimir Nabokov, teve tanto impacto que, mesmo quem não sabe do que trata a obra conhece o significado da palavra ninfeta e do próprio nome da garota. É um clássico da literatura que deve ser lido ou ao menos assistido para ver o brilhantismo dessas duas figuras: Stanley Kubrick, no cinema, e Nabokov, na literatura.

Veja o trailer do filme de Stanley Kubrick

*Este foi um texto que fiz para o trabalho para a Cásper Líbero (Língua Portuguesa)

O primeiro curta a gente nunca esquece


Desde pequena eu adoro filmadoras e câmeras fotográficas. Se você não acredita, basta pedir uma daquelas fitas VHS da minha infância que você vai ver eu gritando pro meu pai: “ filma eu, pai. Filma, eu”. Pois é, o que era só registro familiar virou hobby mais tarde quando a minha família comprou a primeira JVC, estilo handcam.

O gosto pela brincadeira fez com que eu usasse a criatividade e regravasse os clipes da minha musa na época (sim, podem rir. Eu tinha 14 anos e adorava a Britney Spears). Como não tinha nenhuma técnica de edição, a gente pausava a música e a filmagem junto para mudar de cenário e lá ia o play de novo. Até hoje me surpreendo que a música nunca cortou. Ficavam bem bacanas, pena que não tenho nenhum desses vídeos mais.

Tudo mudou quando apareceu aqui em casa uma filmadora de HD. Nossa…foi sensacional! Nunca me esqueço da alegria ao descobrir que poderia passar o vídeo para o computador e gravar em DVD. Tanta tecnologia… e eu ainda não sabia mexer em nada.

Até que entrei na faculdade. Aí me encantei mais ainda. Vi pela primeira vez uma ilha de edição de perto. Confesso que era MUITO amadora, mas era uma ilha. No primeiro dia que vi a mulher capturando e editando e foi daí que eu resolvi instalar o adobe première em casa e aprender a editar na marra. Muitos foram os vídeos simples, como montagem de fotografias até chegar nas matérias de 1 minuto para a PUC.

Fui me aprimorando, lógico que com muita ajuda de amigos, até que me embrenhei em filmar festas de dança do ventre. Foi uma época de grande aprendizado, onde fucei mesmo no programa e me vi fazendo coisas que nem imaginava.

Por causa disso, resolvi encarar um grande desafio: fiz meu tcc em vídeo – um documentário a respeito de feiras livres. Um dia eu dedico um post especialmente ao meu TCC e a tudo que se passou.

Apesar de este post já estar enorme, o foco dele é o meu primeiro curta-metragem. Pra quem não sabe, estou fazendo a segunda graduação em rádio e TV e foi lá que tive a oportunidade de fazer isso.

Claro que não fiz nada sozinha, todo o trabalho foi em equipe. Confesso que foi muito gratificante ver que uma simples ideia de personagem transformou-se num curta que eu jamais esperava ser capaz de produzir.

A elaboração do roteiro não foi nada fácil e quando ficou pronto, olhamos pra ele e pensamos:  “praticamente impossível filmá-lo nas condições que temos para gravar”. Tínhamos apenas 4 horas e não podíamos ir além do quarteirão da faculdade. Mas encaramos o desafio e gravamos em 3h30. Inacreditável como tudo foi se encaixando e quando acabamos a gravação eu só olhei pra Ana, da equipe, e disse: “Fizemos o impossível, a gente conseguiu!”

Eu estava acabada de cansada, mas extremamente feliz. Quando fui editar eu me surpreendi com o resultado. E eis abaixo o trabalho que realizamos. Não ganhamos o Casperito, mas o sentimento de realização valeu por todo o esforço.

Confiram!

“Sem serviço” (2009)
Agitação de cidade grande, as pessoas sempre com a tecnologia pindurada na orelha. Neste mundo comtemporâneo há uma contradição com a ajuda de um mensageiro do passado: Hermes (Caio Ramos). Há muito tempo ele anda sem serviço por causa dos aparelhos celulares já que os humanos o trocaram pelo SMS. Até que um dia, ele percebe que Márcia (Leila Brambilla) não recebe um torpedo importante e resolve ajudá-la, entregando a mensagem ele mesmo.

Este é um trabalho dos alunos do 1 RTVC da Faculdade Cásper Líbero

Ana Luisa Pacheco, Bruna Carvalho Marques, Bruno Teixeira, Danilo Sala, Livia Di Bartolomeo e Mayara Picoli Rafael

Para quem gosta dos bastidores, confira o making of

“Metrópolis” e a Alemanha dos anos 20


O texto abaixo foi escrito para um trabalho da faculdade de RTV e eu gostei tanto que resolvi postar aqui.

O merecido 10 não dependeu só de mim, pois escreveram comigo Mayara Picoli e Bruna Marques, duas amigas queridas que agora me aguentam nos trabalhos hehehe.

 

Boa leitura!

 "Metrópolis"

A partir de Georges Mèliès o cinema encontrou uma maneira de recriar a sua própria realidade. Este trabalho visa analisar como o filme “Metrópolis”, do diretor austríaco Fritz Lang, demonstra um pensamento comum no momento pós-Primeira Guerra Mundial e pré-ascensão do nazismo.

A Europa estava num período singular de fervor cultural, pois as vanguardas traziam uma nova visão do mundo representada nos avanços na arte, literatura, ciência, tecnologia e, é claro, no cinema. É neste período de descrença na industrialização e ciência que o cinema alemão teve um grande desenvolvimento em termos de estruturação, uma vez que as produções estrangeiras eram barradas e muitos artistas de outras áreas migraram para esta nova indústria com o objetivo de expressar as novas esperanças e temores [1].  “Os filmes expressionistas têm elementos em comum com a necessidade de expressar um sentimento de opressão e revolta em relação ao mundo. Eram elementos puramente visuais (…), baseiam-se todos eles na exteriorização de estados da lama, de situações extremas, que são refletidas no cenário, na composição do quadro e na interpretação”. [2]

O filme refere-se a uma sociedade do futuro, mas na verdade se trata de uma metáfora sobre a Alemanha dos anos 20. “Metrópolis é uma cidade moderna onde a tecnologia domina o tempo e o espaço em que os homens vivem.” [3] A sociedade é disciplinar e Lang destaca uma hierarquia na qual ainda há escravidão sendo que o topo da pirâmide é ocupado pelas máquinas. O indivíduo não existe em “Metrópolis”, só a massa, e o trabalho é visto como necessidade social.

O movimento dos trabalhadores é mecanizado e isso se percebe no início do filme quando uma multidão, que acaba de terminar suas horas de trabalho, é substituída por outro grupo de operários. Todos estão com ombros caídos, resultado do cansaço e insatisfação. É reflexo do mundo expressivo, pois eles parecem engrenagens em funcionamento sustentando uma elite privilegiada. As grandiosas máquinas podem ser interpretadas como a energia que mantinha o luxo para os ricos de Metrópolis, ou seja, as novas tecnologias, e a própria industrialização é representada no filme como geradora de lucros e riquezas.

O enredo é ambientado em 2027 numa grande cidade, Metrópolis, governada por um poderoso empresário, John Fredersen (Alfred Abel). Há nitidamente duas classes sociais: os privilegiados, como o herdeiro da cidade Freder (Gustav Frohlich), que vivem num jardim idílico e os trabalhadores que vivem e trabalham no subsolo, como Maria (Brigitte Helm). Esta personagem é uma líder sentimentalista, “o coração conciliador entre o cérebro capitalista e as mãos que executam” [4], se destaca e convence os companheiros a se organizarem para poderem reivindicar seus direitos.

Nas reuniões com os operários ela pedia paciência, dizia-lhes para aguardarem pacificamente o surgimento de um mediador, que conciliaria os criadores de Metrópoles e o proletariado. Já Freder é alienado, filho do importante dirigente da cidade e dono na fábrica, não sabe o que se passa no fundo da cidade, e se apaixona por Maria. Esta paixão o leva a conhecer a cidade subterrânea. Lá ele adquire consciência social no momento do aparecimento de “Moloch”, divindade que exige sacrifícios humanos, inspirado em “Cabíria” de Pastrone. Após a explosão dessa máquina, Freder tem um delírio imaginando que Moloch engole os trabalhadores como uma forma de substituir a mão-de-obra. Assustado com o que viu, o personagem tenta falar com seu pai que controla a cidade pela janela.

Assim como os trabalhadores, nota-se que o pai de Freder também é um personagem robotizado, uma peça que regula as atividades de Metrópolis. Neste momento é possível observar o cuidado que Fritz Lang teve em demonstrar a arquitetura da cidade, a qual foi inspirada no impacto que o diretor teve ao ver os arranha-céus de Manhattan, em grande desenvolvimento na época.

Não obtendo o resultado esperado, Freder se disfarça de operário e tenta vivenciar o dia-a-dia dos homens-máquina. A partir desse momento o protagonista passa a ficar subordinado às horas. O diretor utiliza no filme um relógio que marca apenas 10 horas, que era o tempo da jornada de trabalho na época. Há diversas cenas que mostram relógios ou coisas que assemelham à sua forma. Desta maneira Lang apresenta o capitalismo como introdutor do trabalho com a noção de tempo, cargas horárias infinitas, representando a vida do homem moderno submetida ao tempo mecânico. É uma sociedade fundamentalmente baseada nas horas e tratada como sistema [6].

 Freder, ao conhecer melhor a cidade, tem uma incansável luta para igualdade de classes, tenta conversar novamente com seu pai, mas não consegue retorno e não sabe que está sendo vigiado. Em razão disso, é feito um clone de Maria e a massa enlouquece com a mudança brusca nos discursos e rebela-se contra a cidade, uma vez que o clone de Maria passa a indagar os trabalhadores sobre sua forma de vida, afirmando que eles já esperaram demais por um acordo entre as classes e os influencia a fazerem uma revolução e a quebrarem as máquinas.

O momento da fabricação do clone é o auge do filme e o que o torna fundamental como ficção científica, por isso a cena ficou muito conhecida. O laboratório mostra a ciência como espetáculo – visão da sociedade anterior à Primeira Guerra Mundial – e os efeitos especiais são riquíssimos.  A obra cinematográfica, inspirada no vislumbre pelas máquinas, mostra de forma alegórica a exploração que sofriam os trabalhadores na época em que foi criado. A história polariza o bem e o mal.

“Metropólis” foi um dos primeiros filmes a tratar da relação “Homem-Máquina”, referindo-se às repercussões das máquinas na sociedade da época. O filme cativa o público por apresentar atores que expressavam os sentimentos. “(…) atores contraindo os olhos para indicar medo, arregalando-os para evidenciar espanto, batendo literalmente o peito para demonstrar paixão, retesando a fisionomia para expressar cólera”[5], mesmo tendo permanecido em exibição apenas por uma semana.

 Seu fracasso é explicado tanto pelos gastos que Fritz Lang teve para produzi-lo, quanto também por apresentar cerca de 153 minutos de duração, o que é muito para a época. Foi afamado por apresentar grandes características políticas, religiosas e encenação sensual, ilustrando uma sociedade tal como a alemã. O filme apresenta cenas memoráveis de acontecimentos com muita influência religiosa, como a sincronia de movimentos dos trabalhadores, a Torre de Babel, forma de alcançar o topo do céu, se juntar aos Deuses, a inundação da cidade dos trabalhadores, a “bruxa” na fogueira, até mesmo a pose de Freder, na máquina do relógio, assemelha-se a Cristo na cruz.

A obra despertou o interesse de Hitler que, ao chegar ao poder, solicitou que seu Ministro Goeebbles convidasse Lang como diretor oficial do nazismo, porque se impressionou com o final conciliador do filme que concretizava a necessidade de uma ordem para as coisas, de se ter um líder, sem contar que é possível notar a semelhança da massa de “Metrópolis” com a massa seguidora do partido nazista que ficou anos no poder. O convite foi o motivo da fuga de Lang, juntamente com outros judeus, para os Estados Unidos, onde realizou diversos filmes antinazistas, mas sempre com “reflexo de uma cultura cujo poder impregna necessariamente todas as formas de arte do país” [6].

“Metropólis” tem uma grande importância hoje para entendermos o pensamento do final dos anos 20, é muito influente e inspirador. É um dos filmes que mais retrata a industrialização européia, mesmo sendo de cinema mudo. É um exemplo importantíssimo do Expressionismo Alemão e deve ser encarado como uma alegoria de uma época de aflição. Originou diversas interpretações, desde um alerta contra o fascismo até a tirania capitalista.

 

 

 Bibliografia

 

[1] MANZANO, Luiz Adelmo F. “O contexto histórico da produção cinematográfica alemã (dos primórdios até 1931)” in Som – imagem no cinema – A experiência alemã de Fritz Lang. Perspectiva. São Paulo, 2003.

[2] MANZANO, Luiz Adelmo F. “O apogeu do cinema alemão” in Som – imagem no cinema – A experiência alemã de Fritz Lang. Perspectiva. São Paulo, 2003.

[3] DUTRA, Roger Andrade. “Sobre técnica e tecnologia” in Metrópolis – cinema, cultura e tecnologia na República de Weimar. PUC-SP. São Paulo, 1999. Dissertação (Mestrado em História)

[4] LOTTE, Eisner H. Fritz Lang. Paris: Editions de l´Etoile – Cinematheque Francaise, 1984.

 [5] MENDES, Francisco. “Metrópolis, de Fritz Lang” in Pasmos Filtrados. Disponível em http://pasmosfiltrados.blogspot.com/2006/02/metropolis-de-fritz-lang.html. Acessado em 25 de maio de 2009.

[6] PARAIRE, Philippe. O cinema de Hollywood. Martins Fontes. São Paulo, 1994