Sorria, você está estagiando

Acompanhe um dia na vida de Ana Beatriz, estagiária de um consultório dentário, e perca o medo do motorzinho do dentista

Por Livia Di Bartolomeo


É bem fácil encontrar pessoas que morrem de medo de ir ao dentista. Muita gente se arrepia só de lembrar da sensação de sentar naquela cadeira desconfortável, com a luz no rosto e ouvir aquele motorzinho barulhento. Agora imagine ter que olhar tudo isso de outro ângulo sem nunca fechar os olhos? Pois é, isso faz parte do dia a dia de Ana Beatriz Albuquerque, 21 anos, estagiária do consultório RH Odontologia.

O início da carreira de Ana lembra muito a época em que era comum os jovens profissionais conhecerem as técnicas com seus mestres, como nos ateliês de artes, pois ela começou a trabalhar como secretária no consultório logo quando terminou o ensino médio e não fazia ideia de qual carreira seguiria “e muito menos o que era dente”, afirma.

Com o tempo ela foi vencida pela curiosidade e passou a frequentar a sala do Dr. Rubens Hirano, dentista e dono do consultório, durante os atendimentos. Toda vez que ficava na sala clínica, prestava atenção aos objetos dispostos à mesa e à habilidade manual do dentista “fazendo cara de conteúdo para não dar vexame”, lembra. Feliz com o interesse da garota, Rubens começou a explicar os procedimentos, os nomes dos instrumentos utilizados até que a convidou para  observar mais de perto alguns dos tratamentos.

E foi assim! Passado o medo da broca e de sangue Ana resolveu vestir o jaleco e prestar odontologia. Para a sua alegria, da família e até a do dentista, ela entrou na FMU, unidade Santo Amaro. Dois anos e meio depois, fomos lá conferir como é a rotina dela.

O dia de Ana Beatriz começa bem antes do sol nascer já que acorda às 5h30 para chegar ao consultório às 6h, uma hora antes da primeira consulta. Suas tarefas estão divididas entre auxiliar o dentista durante o atendimento, revelar radiografias, agendar e confirmar os pacientes, arrumar a sala antes e, depois de cada atendimento, conferir os materiais e realizar a pesquisa para compra.

Além disso, ela atualiza o cadastro dos pacientes no Easy Dental – software que permite adicionar não só os dados numéricos de cada paciente, mas também as informações sobre os dentes. No dia da nossa visita, Ana tinha duas missões: uma restauração e a confecção de placas de clareamento.

O estágio
Dentro da sala clínica a única parte do corpo de Ana que enxergamos são os olhos. Ligada  à higiene, ela usa tudo branco: roupa, avental, luva, máscara, touca e óculos de proteção. A restauração durou aproximadamente uma hora e pudemos ver a atenção e concentração dela a cada movimento das mãos do Dr. Rubens. Percebi que a estagiária já se sente à vontade, pois quando não estava pegando material para o procedimento, ficava com os olhos vidrados nos dentes do paciente que por sinal se sentiu tão seguro e confortável que acabou cochilando, puxando aquele ronco.

Como Ana é estudante, não pode ainda atender pacientes a não ser na faculdade quando supervisionada por um professor, algo que ocorre somente a partir do terceiro ano. E consultar sozinha só com o CRO, registro dado pelo Conselho Regional de Odontologia que fiscaliza e autoriza o exercício da profissão. Enquanto a aprendiz não vira mestre, ela só assiste o dentista.

Quando o procedimento acabou, Ana arrumou a sala e guardou os materiais que não precisavam ser lavados. Mas o dia estava longe de terminar e fomos direto para a cozinha onde ficam as máquinas para a confecção dos moldes de clareamento. Enquanto aguardávamos o equipamento esquentar, conversamos sobre a vida de estudante e estagiária.

Ana fala que trabalha de segunda a sábado e que o horário de trabalho é tranquilo. “Não pego trânsito e chego na faculdade antes das 17h. Até consigo ir para a biblioteca estudar.” Para ela o estágio é mais que um trabalho, é também aprendizado. “Na faculdade a gente vê muita teoria, o porquê das coisas. Aqui no estágio é tudo prático e o Dr. Rubens me explica e ensina muita coisa que sei que irei aprender só a partir do terceiro ano”, conta.

A máquina avisa que a placa está pronta e os ponteiros do relógio anunciam que está quase na hora de ir embora, mas ela deve confirmar os pacientes da manhã seguinte e ainda cotar preço de materiais em algumas fornecedoras. Observá-la realizando tantas tarefas me fez perguntar o que mudou na vida dela quando decidiu cursar odontologia.

A primeira coisa que Ana falou foi sobre as mudanças em seu guarda-roupa. “Logo que comecei a trabalhar aqui tive que comprar roupas brancas. Antes eu não tinha quase nada e hoje elas ocupam grande parte do meu armário”. O cuidado com os dentes aumentou já que agora ela sabe dos problemas que podem aparecer com uma má higiene bucal, mas também porque “dá vergonha sentar na cadeira do chefe com o dente todo sujo.”

Além disso, agora ela tem uma rotina intensa de estudo e trabalho. “Às vezes o namorado fica bravo porque eu estou cansada, mas no fim ele entende o esforço e acaba me apoiando”, diz com um lindo sorriso no rosto.  E é com esse sorriso nos lábios que Ana se despede da gente e vai cumprir a última missão do dia: assistir aula.

Publicado no site Ikwa em 28/09/09

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