#3 No transporte público


Quando chove em São Paulo, o caos se instaura

Hoje o dia já amanhece prometendo não ser nada fácil. Chuva e frio invadiram São  Paulo o que complica ainda mais o caos no metrô e o trânsito na rua. Tenho uma crônica sobre chuva em SP. Clique aqui

Foram necessários 25 minutos para que eu conseguisse embarcar no trem na estação Tatuapé, mas para a minha alegria, uma nova conversa rendeu o capítulo 3 da série “No transporte público”.

Relógio: 8:35
– Pessoal, vamos ficar atrás da faixa amarela, por favor? – pergunta o funcionário
– Por acaso hoje não vai passar um vazio? – perguntou um cidadão
– Olha, a gente tinha mandado um que fez manobra, mas daí deu problema na estação Brás e ele teve que voltar – respondeu o funcionário
– É, eu vi. Cheguei na estação 8:10, bem na hora que anunciou que ia fazer a manobra, mas daí vi que ele foi pro outro lado.

Um metrô chega na estação molhando a todos por causa da chuva

– E ainda por cima ele tá parando fora da marcação da porta – reclama o cidadão
– É proposital – disse o funcionário – para que as pessoas que ficam na frente esperando o vazio darem passagem a quem quer embarcar.
– É…tipo eu?
– Você e todos que estão na frente – riu o funcionário.

Neste momento, o funcionário olha para o metrô cheio e diz:
– Sabe o que é pior? Fica tudo abafado e um monte de gente passa mal
– É, eu não tenho coragem de embarcar por causa do Brás – falou o cidadão
– O Brás é complicado mesmo. Meus equipamentos de trabalho são rádio, lanterna e luvas. Ja já que venho com desodorante.
– Desodorante?
– É! Tem gente que consegue feder logo cedo
Neste momento não pude conter a minha risada
– Tipo assim, sabe? Joga o desodorante antes de todo mundo entrar – fala o funcionário
– É…e uma bala talvez? Tem gente com bafão.
– hehehe, faz parte

– Ah, meu deus! – grita uma mulher
O funcionário vá ao lado dela e pergunta o problema
– Caiu meu guarda-chuva no vão entre o trem e a plataforma – disse
– Tudo bem, eu pego. Isso não é nada. Pior quando alguém cai – responde o funcionário
– E pensar que morre tanta gente e o metrô não divulga – fala o cidadão
– Tem tanta coisa que acontece neste país que não é divulgado – fala o funcionário – olha só…lá vem o vazio. Pessoal, se dirijam aos corredores.
Relógio: 8:40
E lá fomos nós lançados para dentro do vagão.

Para esclarecer:
O metrô em São Paulo nos horários de picos, das 7hs às 9h30, é lotado, principalmente na linha vermelha (leste-oeste). Todos os dias, neste período, há alguns trens que vão vazios nas estações penha, carrão e tatuapé para aliviar o acúmulo de usuários. O problema é que tem gente que fica esperando estacado na frente da porta e não dá passagem aos demais usuários. Falta mais cidadania do que estrutura por parte do metrô.

Outros episódios
#2 No transporte público
#1 No transporte público
No transporte público

Você tem uma história boa pra contar? Mande pra mim! ldbartolomeo@gmail.com

Anúncios

#1 No transporte público


O riso é o melhor remédio contra o mau humor

No meio do vagão, tinha uma moça que me fez rir

O mais desesperador não é ouvir o despertador te acordar no momento em que você acaba de pregar os olhos, mas sim abrir a janela e ver que chove. Chuva pode significar muitas coisas, mas em São Paulo a melhor palavra que define a situação é o caos. O caos te traz o trânsito infernal e o metrô lotado, que prova que dois corpos ocupam sim o mesmo espaço. Pois bem, naquele dia foi bem assim.

Mas como estou acostumada com a odisséia do metrô, tomei aquele banho relaxante, me agasalhei neste frio de 16ºC e tive a sorte de a mamãe estar em casa e me deixar no metrô. Chegando na estação, já veio o primeiro índice: a fila para passar na catraca estava muito grande e quando você começa a questionar o motivo,  a voz do além, vide voz do funcionário que ecoa por toda a estação, informa: “Estamos restringindo a entrada na plataforma devido à chuva e acúmulo de usuários.”

Ao contrário da multidão a minha volta, respirei fundo e pensei “Não se estresse que não vale a pena”. Com este pensamento, cheguei na plataforma e fui jogada para dentro do vagão. No meio do amasso, o mau humor começou a querer aparecer…e foi então que a vi e ouvi a menos de 10 cm do meu ouvido, uma moça morena e um pouco mais alta do que eu estava com a bolsa na minha cara conversando com uma loira, menor do que eu, que foi socada atrás de mim.

As duas eram amigas e logo deu para perceber que a morena chamava Vanessa e a loira, Tati. E por causa do aperto do vagão, uma ficou de costas para a outra, mas a comunicação entre elas se deu mesmo assim, até mesmo comigo ali no meio. Geralmente eu me irrito com as conversas, mas dessa vez eu não me contive e ri na cara delas rs

Reprodução do diálogo

Tati: Tá tão cheio hoje que nem consigo mexer os meus braços…
Vanessa: Ai, amiga. Pensa assim: Você nem precisa segurar. Não vai cair, o povo segura. E eu to aqui de boa, tão apertada que em sinto sentada.

Freada brusca

Vanessa: Ixi….acho que quebrei as minhas pernas. Ui…ainda bem que a moça ta com as costas escoradas na minha, dá até pra alongar.
Tati: Ai, vou chegar atrasada de novo.
Vanessa: Mas que horas são? Não consigo ver o meu pulso.
Moça X: São 8h30
Vanessa: O, moça, brigada. Adoro esse povo do metrô, povo unido nos corpos e na solidariedade.
Tati: é, espera chegar o brás.
Vanessa: Ai a gente grita: Socorro….

silêncio

Vanessa: mas de que adianta gritar socorro se ninguém vai ouvir?
Tati: Pois é.
Vanessa: Vamos gritar todos juntos.

Estação Brás, transferência gratuita para as linhas da CPTM. Desembarque pelo lado esquerdo do trem.

Vanessa: Ui, Jesus!!
Tati: Ai, socorro
Uma multidão entra gritando e aperta ainda mais as duas moças.
Vanessa: Gente, vamos todo mundo empurrar pra trás, tipo uma barreira…
Tai: Tarde demais…já até fechou as portas. Que calor, meu deus.
Vanessa: Pensa assim, ó. Parou de chover o povão deixou as janelas abertas.

Brecada brusca

Vanessa: Tá tão lotado que nem me mexo, eu desafio o maquinista me fazer cair. Pode brecar que eu não caio… o povo não deixa.

Brecada brusca

Vanessa: Tome, maquinista  ruinzinho! eu to aqui inteirinha hahaha
Tati: Ai, Vanessa…só você mesmo.
Vanessa: ué, tati. Rir é o melhor remédio pro mau humor. Pode rir moça (se referindo a mim que já tava roxa de tanto rir). Assim eu já chego bem no trabalho. Pra que estressar? Vou chegar bem e fazer o meu trabalho é isso que importa.

Estação Sé, transferência gratuita para a linha 1 azul. Desembarque pelo lado esquerdo do trem.

Vanessa: Hora de ser lançada pra fora. Tchau, amiga. Bom dia pra você e você (eu). Que o seu dia seja mais iluminado que hoje porque voltou a chover.

E não é que a Vanessa tinha razão? Ri tanto que cheguei bem humorada no trabalho e o meu dia rendeu muito. Queria encontrar ela de novo…com certeza iria rir muito.

E você? Já encontrou alguém assim no meio da muvuca?