No transporte público


Moro em São Paulo e ando de transporte público como grande parte da população que mora na mesma região que eu: na ZL. E ainda uso nos famigerados horários de pico. Para sentir o clima, selecionei um poema de um autor desconhecido (quem souber de quem é, me avise, por favor)

O pico de cada dia

O momento em que estamos juntos é interminável…
Nossos corpos estão tão unidos que posso sentir as batidas do seu coração.
Nossa respiração confunde-se com a do outro…
Nossos movimentos são sincronizados…
Indo e voltando…
Para frente e para trás…
Às vezes pára, e então, quando nos cansamos da mesma posição, nos esforçamos para mudar, mesmo que seja só por pouco tempo.
O suor de nossos corpos começa a fluir sem nada que possamos fazer.
Um calor enorme parece que nos fará desmaiar…
Uma força ainda maior nos faz ficar ainda mais colados um ao outro e, quando não aguentamos mais segurar…
Uma voz ecoa em nossos ouvidos…

“Estação Sé, desembarque pelo lado esquerdo do trem”

Resolvi criar a série “No transporte público” a partir deste poema e de um comentário que já ouvi dentro do metrô:  “Falou alto, é porque quer ser ouvido” dito por Cristiana Uehara, uma colega do Curso teatral para não-atores.

Se você tiver histórias para contar, escreva aqui também. Afinal, aguentar o pico não é fácil e tem vezes que a gente precisa dar risada pra não chorar. Ainda não defini o formato da série, mas é bem provável que apareça como crônica ou roteiro…vou observando o andar da carruagem e também o que faça jus a determinados acontecimentos.

Até segunda-feira estará no ar o primeiro episódio! Aguardem

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Como tudo começou…


Quando era mais nova, houve uma febre de blogs, weblogs, blogger…enfim..quase todo provedor cedia um espaço gratuito para usuários que desejavam ser lidos na web.

Com as minhas colegas de escola, montei diversos blogs, mas nenhum teve uma vida longa…afinal utilizava o blog como um “diário virtual” e praticamente se resumia a pequenos relatos da minha vida.

Obviamente cansei e acabei desativando.

Hoje, a menos de um ano para me formar em jornalismo, resolvi voltar a escrever como uma forma de praticar e como uma terapia neste ano de TCC.

E, para inaugurar, publico uma pequena crônica que escrevi hoje pela manhã, com a revisão de uma grande amiga, Camila Fink.

Manchas  

Por Livia Di Bartolomeo 

O seu nome é Carlos, tem 28 anos e está na profissão há um mês. Nunca pensou que algo tão inimaginável pudesse ocorrer em tão pouco tempo de serviço. O dia havia amanhecido como qualquer outro, a não ser pela ligação de seu chefe avisando que aquele seria o momento de monitorar uma importante rodovia da cidade. Por mais que fosse domingo, ele estava contente com a oportunidade que lhe havia sido confiada. 

 Chegou ao local com uma hora de antecedência para conhecer os seus companheiros daquela tarefa que muitos achavam tediosa. Num determinado momento, seu superior deixa o posto para tomar seu café da manhã e Carlos encontra-se só diante de telas de monitoramento. Observa que alguns ultrapassam a velocidade e que um determinado carro pára no acostamento.Tudo acontece muito rápido e a sua única reação é chamar seu superior, mesmo sabendo que não deveria interromper o “coffee break”. Irritado, seu chefe derruba o café em sua camisa nova.

Ao fim de tudo, Carlos volta a trabalhar no departamento. Está chocado com o que viu e ainda por cima por ter que lavar a camisa manchada. Seu horário de trabalho volta ao normal, mas naquele dia foi dispensado mais cedo para ir à lavanderia. No caminho, filosofa sobre a “mancha” enquanto observa a camisa.

Ao chegar na estação de metrô depara-se com uma fila imensa e muitas pessoas desesperadas. Nessas horas não há final de expediente e assume seu papel de policial. Se junta aos colegas que já estavam no local e nota a presença de uma ambulância com as portas abertas e uma equipe de pessoas vestidas de branco carregando uma maca na qual transportavam um homem.

Vê manchas avermelhadas no caminho. Manchas. Em dois dias, já havia visto três, mas ele sabe que serão lavadas e os especialistas garantem que deixarão de existir. O que eles não sabem é que existem certas “manchas” que são permanentes e por mais que sejam apagadas da superfície, elas ficam na memória. Mas Carlos sabe que aquela da camisa deve ser tirada.