Esse cara existe?!


No meio do frisson “Saga Crepúsculo” duvido que não haja um ser do sexo feminino, independente da idade, que não tenha alguma vez sonhado em ter o cara perfeito na vida. Vampiros e lobisomens a parte, venho falar de outra coisa, mas do mesmo assunto.

Na faculdade somos desafiados a realizar coisas que antes a gente nem parava para pensar sobre. E tem uma matéria, aliás, um professor, que adora botar nossa cabeça para funcionar. Pois bem, o tema do trabalho era discutir o que é a realidade, quem está falando a verdade e outras questões que filósofos ficaram anos discutindo e que nós da casa dos 20 anos devemos começar a refletir.

O que é a realidade? Difícil responder porque ela é uma experiência individual única já que está diretamente ligada à consciência (Edmund Husserl). Pensando que a consciência nunca é pura, é sempre alguma coisa, pode-se dizer que ela se dá a partir da experiência. Aí está o problema. Como ninguém passa pela mesma experiência que o outro, ela só tem significado dentro da consciência de cada um. É complicado fazer o outro saber o que você passou, ele pode ter uma ideia. O engraçado é que mesmo que ele passe por uma mesma situação, a experiência para ele pode ser diferente da sua.

Ficou complicado? Vamos simplificar. Desta vez, resolvi ficar na frente das câmeras e aproveitar a minha semelhança com Ana Luisa para colocarmos em prática a teoria que escrevi precariamente (a aula foi infinitamente melhor) . Livia (eu mesma) acredita que tem no namorado perfeito, mas a sua irmã Ana acha que ela inventou esse cara. (Foi por causa disso que iniciei o post falando de namorado perfeito). As duas têm certeza da sua versão da história…mas e ai, ele existe? Espero a sua resposta, mesmo que seja algo que diga para eu nunca mais atuar (rs).

Grupo: Ana Luisa Pacheco, Bruna Marques, Caio Ramos, Livia Di Bartolomeo e Mayara Picoli.

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A única coisa permanente no universo é a mudança


Este post inicia com uma frase de Heráclito (540 a.C.- 470 a.C.) para apresentar uma análise do filme “Efeito Borboleta” (2004) e a obra deste filósofo. Veja o trailer do filme.

Esta análise partiu de um trabalho de filosofia realizado em 2008. Para variar, escrevi ele com a Bruna Marques.

ATENÇÃO: ESTE TEXTO TEM SPOILERS

As pessoas que dizem desgostar de filosofia o fazem porque não entendem o pensamento expressado muitas vezes em palavras incompreensíveis ao vocabulário cotidiano do século XXI, mas também é comum encontrar diversos filmes chamados Blockbuster´s, que vendem muito e que na maioria das vezes tem seus roteiros baseados em filósofos supostamente desconhecidos para elas em razão da falta de interesse.

Um deles é Efeito Borboleta, cujo título original em inglês é Butterfly Effect. Lançado em 2004, foi dirigido e roteirizado por Eric Bress e J. Mackye Gruber. Com o protagonista representado por um dos atores juvenis mais cobiçados da época, Ashton Kutcher, o filme teve grande divulgação e multidões assistiram à história de um rapaz que, assim como seu pai, quando criança tinha surtos de falta de memória -blackouts, como chamado no filme. Em algumas cenas, esse problema do garoto causa os diversos pontos de virada observados na montagem.

Ao ficar mais velho, Evan, o personagem principal, percebe que ao ler os seus diários ele é capaz de voltar ao passado, especialmente naqueles momentos em que ele não se lembra, mas com um detalhe: ele recorda o que teria acontecido durante os blackouts. Surpreso, procura seus amigos de infância para ver se aquela visão era real. Porém, ele deixa os outros personagens atormentados causando até o suicídio de Kayleigh, personagem pela qual foi apaixonado por toda a sua infância.

Aqui começa o desenrolar da história. Assustado, ele tenta reler alguns de seus cadernos para tentar evitar o suicídio de Kayleigh e assim começa a mudar o seu passado. O grande problema é que nada permanece. Qualquer nova decisão que ele toma em seu passado deflagra nas consequências mais diversas.

Heráclito

É aqui que nos atrevemos a comparar o filme com o pensamento do pré-socrático Heráclito (540 a.C a 470 a.C) começando com uma citação retirada do livro “Convite a filosofia” de Marilena Chauí: “O mundo, dizia Heráclito, é um fluxo perpétuo onde nada permanece idêntico a si mesmo, mas tudo se transforma no seu contrário. A luta é a harmonia dos contrários, responsável pela ordem racional do universo. A nossa experiência sensorial percebe o mundo como se tudo fosse estável e permanente, mas o pensamento sabe que nada permanece. Para Heráclito tudo se torna contrário de si mesmo. O logos é a mudança e a contradição.”

É exatamente isso que ocorre com Evan. A cada mudança, por mínima que seja, causa uma contradição, quando ele decide voltar ao seu passado. Ele resolve um de seus problemas, mas outros surgem, ainda mais complexos de se entenderem e mais difíceis de serem resolvidos. Até Evan muda,não em sua relação sentimental com as pessoas que ele sempre amou, mas sim em seus gostos e sua maneira de levar a vida.  Por isso a cada nova situação vemos uma nova personalidade que ele demora a compreender e também percebe que as pessoas ao seu redor sofrem influências dessas reviravoltas. Enfim, ele está em constante metamorfose, como qualquer outro elemento da natureza.

Mais uma vez nos utilizamos de um exemplo da teoria de Heráclito. Evan seria o rio modificado, ou seja, ele nunca é o mesmo, pois “nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos”.O filósofo ainda avisou em seus excertos que os humanos devem sempre esperar e reencontrar o inesperado, pois “a incredulidade pura e simples denota um espírito obtuso e fechado ao enigma do mundo”. Pelo filme, vemos que o personagem desconhece essa teoria.

Outra questão observada no filme é que ele constantemente se refere ao tempo. Mas o que é o tempo? Para Heráclito o conceito de tempo é abstrato e existe a partir dos opostos. Ele é e não é, e está posto numa unidade e, ao mesmo tempo, está separado, ou seja, é abstrata contemplação da mudança já que o conceito de passado, futuro e presente foi convencionado, foi o ser humano que deu sentido e significado ao tempo.

Para Evan, voltar ao tempo passado era uma oportunidade de “reparar” alguns detalhes de sua vida, mas ao interferir no que foi feito, ele muda o seu presente sendo que as consequências dependerão das suas novas escolhas ao voltar ao passado, pois cada mudança que é feita, por mínima que seja, interfere em muitas outras coisas. O nome do filme explica exatamente isto. O efeito borboleta remete a teoria do caos, citada no início do filme. Este efeito foi analisado pela primeira vez em 1963 por Edward Lorenz. Esta teoria diz que o simples bater de uma asa de borboleta poderia mudar o curso natural das coisas podendo até causar um terremoto do outro lado do mundo. Mas há cientistas que dizem que o formato dos gráficos analisados quando há movimentos caóticos é de uma borboleta.

Se a borboleta influencia um terremoto ou se é mera ilustração gráfica não sabemos. O que importa é que dentro dessas duas explicações pode-se analisar o filme e a teoria de Heráclito.  A cada novo “bater de asas” do personagem, sua vida inteira sofre um terremoto e a cada “bater de asas” da própria borboleta, sua essência também muda porque de acordo com Heráclito, a única coisa que permanece no universo é a mudança.

Em oposição, podemos comparar o filme com os pensamentos de outro pré-socrático Parmênides (530 a.C. a 460 a.C.), que sustenta a idéia contrária a de Heráclito. Esse filósofo diz que a mudança é algo criado no mundo dos sentidos e que é ilusório.
Ao contrário de Heráclito que afirma que “tudo muda”, Parmênides diz que “nada muda”. Assim, por mais que suas águas mudem de posição, um rio será sempre o mesmo rio. E no filme “Efeito Borboleta” também se pode enxergar isso. Por mais que as situações mudassem, a essência de Evan, ou seja, seus sentimentos e princípios sempre continuavam os mesmos.

E o que você acha de tudo isso? Comente abaixo.

O clube de Nietzsche


Lendo o post de Camila Fink a respeito do filme “O Segredo de teus olhos” me deparei com uma citação de Nietzsche e logo lembrei que em 2009 fiz em grupo um trabalho de comparação entre o filme “Clube da Luta” (1999) e o pensamento nietzscheano. E hoje, uma das componentes do grupo me pede para reenviar o trabalho. Aí pensei: “ah, vou colocar no blog também”.Então, segue abaixo o trabalho escrito por: Bruna Marques, Bruno Ravagnani, Livia Di Bartolomeo e Mayara Picoli Rafael. Se você não gosta de spoilers, pare de ler agora.

Lavar o consumismo da sociedade de massa

A primeira vista “Clube da Luta” (Fight Club, 1999, EUA) do diretor David Fincher parece ser mais um filme superficial no qual o grande foco são as lutas para todos os lados, para a alegria dos rapazes, e a figura do Brad Pitt, para a felicidade feminina. Entretanto, uma olhada rápida na sinopse instiga as possíveis mensagens implícitas já na capa do dvd cuja imagem mostra um sabonete e o nome do filme.

Esta é a história de Jack (Edward Norton), um investigador de seguros de uma grande empresa automobilística. E logo no início do filme encontramos esse personagem redecorando a casa a partir de catálogos de móveis. E o que poderia ser algo fútil se torna interessante na medida em que ele reflete sobre o ato viciado de preencher os espaços vazios de sua casa. Jack se vê apenas como mais um escravo do consumismo que comprava tudo o que achava interessante sem saber o motivo, seguindo sempre mais um valor estabelecido pela sociedade. E para melhorar a nossa perspectiva, o personagem sofre de insônia.

Com o diálogo “…quando se tem insônia você nem dorme nem fica acordado direito.1”, Nietzsche remete este mesmo comportamento aos cristãos porque, para ele, os fiéis estão em um constante estado dormente de rebanho já que não vivem a vida plenamente por idealizarem um além-túmulo – vida após a morte-, ou seja, vivem de modo passivo sem seguir seus instintos e vontades, como são os cordeiros de um rebanho.

Esta moral de rebanho, submissão de modo irrefletido aos valores dominantes da civilização e da burguesia, é criticada por Nietzsche. A ação de Jack ao comprar todo o catálogo reflete o pensamento nietzschiano de que não somos seres humanos livres. Assim, o filósofo desenvolve o seu conceito de niilismo como uma não-crença em nenhuma verdade, moral ou hierarquia de valores pré-estabelecidos. A recusa, ou “reveja os seus valores e ouse ser você mesmo” é mais tarde retratada no filme a partir do personagem Tyler Durdern (Brad Pitt).

Quando Jack busca o médico para tratar sua insônia, é aconselhado a frequentar grupos religiosos de apoio às pessoas com câncer para que ele entenda o que é sofrimento de verdade. Deste modo, fica evidente que a sociedade está impregnada com o valor cristão de que a igreja é a única que acolhe os fracos e desesperados.

Em um desses grupos Jack conhece Bob, um portador de câncer nos testículos que devido ao tratamento desenvolveu mamas, de forma a parecer seios femininos e, ao descrever Bob, diz: “…entre aquelas enormes tetas suadas, enormes, tão grandes quantos Deus (…)”2, como uma metáfora do tamanho do poder de Deus e da Sua influência na sociedade cristã.

No filme, há dois personagens muito importantes, Marla (Helena Bonham Carter) e Tyler. Comecemos com Marla. Para o grupo esse personagem remeteria ao mito da caverna de Platão, pois ela entra na caverna das ilusões (grupos de apoio) e resgata Jack à sua realidade. Graças a ela, Jack deixa de se enganar e não acha mais conforto dentro dos grupos. Neste momento ele conhece Tyler, outro ponto em que a filosofia de Nietzsche aparece na tela.

Com Tyler, Jack é apresentado a uma nova forma de ver a vida, pois segundo o personagem a autodestruição é o que faz realmente a vida valer a pena e o homem não deve aceitar simplesmente o que lhe é dito e imposto. Esta é uma visão como o niilismo de Nietzsche, pois “um niilista é um homem que não se curva ante qualquer autoridade; nem aceita nenhum princípio sem exame, qualquer que seja o respeito que esse princípio envolva”3.

O fato de o personagem possuir uma empresa de sabonetes dá margem à interpretação de que ele veio para limpar Jack da sujeira da submissão. Esta limpeza é perceptível quando ele muda o seu comportamento conforme fica mais íntimo de Tyler.
Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, escrito em 1872, apresenta duas tendências básicas humanas de comportamento que entram em conflito: a tendência apolínea e a dionisíaca. A primeira é aquela que leva o homem a ter um desejo de ordem em sua vida, onde tudo possa ser o mais cristalino e claro possível e, segundo Nietzsche, esse comportamento era representado por Apolo, o Deus Sol, Deus da verdade, da moderação e da individualidade, do lazer, do repouso, da emoção estética e do prazer intelectual.

A outra tendência é a dionisíaca, que levava o homem a atos irracionais e selvagens. Nietzsche afirmava que esse comportamento era representado por Dionísio, Deus do vinho, das festas, dos bacanais.  Em outro livro, Ecce Home, Nietzsche afirma que “a realidade nos mostra uma encantadora riqueza de tipos, uma abundante profusão de jogos e mudanças de formas” e é exatamente a partir deste excerto que surge o clube da luta.

Jack, que sempre fora uma pessoa pacata e que seguia os valores estabelecidos pela sociedade, passa a se tornar uma pessoa que vê na violência e na selvageria uma forma de crescimento pessoal. Então, quando Tyler aparece sabemos que isso acontece por causa da necessidade de Jack de ter maiores alegrias em sua vida banal e rotineira. Tyler o incentivará rumo a ultrapassagem dos limites do certo e do errado e o Clube da Luta era o local onde aqueles homens revelavam seus verdadeiros instintos de animal e assumiam a vontade do poder e da força, era o local onde eles podiam ser eles mesmos, sem máscaras e também uma briga espiritual, a revolta contra a depressão que é a vida cheia de leis morais impostas aos homens.

As brigas podem ser vistas como uma forma de extravasar os instintos aprisionados pela moral burguesa, como se apanhar e bater transformasse Jack em indivíduo novamente, só que desta vez um ser humano livre. Mas, apesar de possuir características niilistas, Jack também cumpre regras, pois no Clube da Luta elas existem e são rigorosas e devem ser seguidas por todos, em quaisquer circunstâncias.

Outro momento que Jack segue e se vê vítima das regras, é quando ele inicia o Projeto Caos (para Nietzsche, os instintos humanos são o próprio caos), no qual os participantes estão proibidos de comentar com qualquer pessoa que não faça parte do projeto e, levado às ultimas consequências, Jack é quase castrado, já que essa era a regra para alguém que denunciasse a polícia sobre o Projeto, que tomou tamanha proporção que até mesmo os policiais faziam parte dele.

Ao tentar se desvencilhar deste novo rebanho, Jack percebe que Tyler não existe de verdade, mas só dentro da sua mente, o personagem de Brad Pitt é o alterego de Jack, porque ele exterioriza todos os sentimentos que estavam adormecidos. Na sociedade moderna o homem busca constantemente objetos que o definam como indivíduo, como o caso de Jack ao comprar móveis nas primeiras cenas do filme.

Esta busca reforça que o consumo é um modo de libertação, ou seja, com o capitalismo é possível gozar de felicidade por meio da compra. No filme, Jack não alcançou o gozo pelo catálogo, mas sim por meio do seu alterego. O problema está no fato de que assim como o consumidor fica preso aos produtos, o personagem se vê preso à Tyler, como um vício já que ele realiza todos os seus desejos sem frustrações.É como o cristianismo para Nietzsche, um vício do qual as pessoas não se livram. Entretanto, Jack assume uma postura nietzschiana e ousa a ser a si mesmo, matando seu alterego, dando um tiro em si mesmo, tornando-se livre.

Veja o trailer do filme

1Fala do personagem Jack. Retirado do filme “Clube da Luta”, 1999
2 idem
3 Retirado de http://ateus.net/wiki/index.php?title=Niilismo. Acessado em 15 de setembro de 2009.

 

Texto publicado no site da Cásper Líbero.