Resenha – A garota italiana – Lucinda Riley


Olá, olá!

Quem me acompanha há algum tempo sabe que eu praticamente devoro todos os livros desta autora. Já rolou até vídeo falando do primeiro livro que li dela e você pode conferir aqui.

Desta vez quero falar de “A garota italiana”. Livro novo? Na realidade não. Lucinda iniciou a sua carreira muito cedo como escritora. Tudo começou em 1992 quando ela ainda assinava como Lucinda Edmonds. E “A garota italiana” foi lançada a primeira vez em 1996 sob o título de “Ária”.

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Originalmente publicado em 1996 com o título de “Ária”

 

Anos mais tarde, depois de virar um sucesso mundial, sua editora pediu para ver suas primeiras obras e sugeriu republicar “Ária”. Lucinda resolveu então reler sua obra e segundo algumas entrevistas que encontrei por aí ela disse que precisou reciclar. Revelou que na época a internet não era lá estas coisas (e não mesmo) e sentiu que precisava atualizar alguns dados. Eu não tive acesso ao original, mas acredito, pelo que li, que ela manteve sim a história, personagens e  melhorou sua parte histórica.

O que mais me chocou é que em “A garota italiana” não existe passagem de tempo. Como assim não existe passagem de tempo? É que na série “As sete irmãs” além de “A garota do penhasco”, “A rosa da meia noite”, “A casa das orquídeas” sempre há uma passagem de tempo, duas personagens – presente e passad0 -que de alguma foram tem algo em comum. Desta vez não.

Em “A garota italiana” acompanhamos o crescimento de Rosanna, uma garota italiana (dã rs) que mora com seus pais em cima de uma cantina e tem uma voz extraordinária. Sim, voz de ópera. Numa festa em família ela conhece Roberto Rossini, um cantor de ópera famoso, que se encanta por sua voz e sugere que ela faça aulas de canto. Rosanna se apaixona à primeira vista e jura a si mesma que um dia irá casar com o cantor. Mesmo sabendo que Roberto é o tipo Don Juan, papa-mulheres, que não se compromete a nada.

Obviamente que os anos passam, Rosanna vira mulher adulta e acaba cantando ao lado dele. Na trajetória deste amor montanha russa entre os dois personagens, conhecemos algumas histórias paralelas como de seu irmão Luca que estuda para ser padre, sua irmã Carlota que era toda maravilhosa e, por um erro, acaba perdendo todo o brilho da sua vida, e Donatella, uma esposa milionária que causa um bocado de situações que dão fogo à história do livro.

Quis muitas vezes invadir as páginas e dar uns tapas na cara de Rosanna e também uns tabefes na cara do Roberto, mas não quero dar spoilers. Quis também chorar com Luca e ri de Donatella (que feio, Lívia rs)

O final foi de certa forma surpreendente e me agradou. Algumas coisas que eu torci deram certo outras me pegaram de surpresa. Os capítulos são curtos, agradáveis, e vale a leitura para quem já conhece a autora. Para quem ainda não se aventurou em suas páginas, recomendo os seguintes títulos:

“A rosa da meia noite”, “Casa das orquídeas” e “A garota do Penhasco”. Se você ama séries, já parta para “As sete irmãs”.

E você, leu “A garota italiana”? Me conte!

 

Tchau, 2013


Pensa num ano que virou o meu mundo do avesso? Sim, foi 2013. Muitas coisas aconteceram, muitas mesmo. Mudanças extraordinárias que quando paro para analisar, parece que vivi 5 anos e não apenas 12 meses.

Fazendo uma retrospectiva, vamos lá:

Em janeiro uma grande decisão foi tomada: Amor e eu marcamos a data do casamento. E compramos a viagem para Paris. Assim, tudo de uma vez! Eu ia casar e logo em seguida realizar o sonho de conhecer esta cidade luz maravilhosa. Como uma boa ariana, a ansiedade passou a fazer companhia todos os dias.

Neste ano, foquei na alimentação e vida saudável. Conheci o muay thai, boxe e até encarei a musculação. Entre idas e vindas encerrei o ano com o mesmo peso que iniciei: 70 kg. Emagreci um tempo, voltei a engordar e no final das contas posso até dizer que mantive o peso rs. Não era bem o peso que queria, esperava estar agora com 60 kg, mas..faltou mais determinação.  Não irei usar a desculpa do casamento não, foi falta de planejamento mesmo. Eu nunca tive um ano tão estressado e ao mesmo tempo tão feliz. O lado emocional ficou a flor da pele durante todos os meses. Alguns sustos no caminho, algumas decepções, mas sei que aprendi e amadureci um bocado.

– Lado incrível de 2013: casei, moro na minha própria casa, ganhei uma afilhada muito amada e amadureci
– Lado tenso: nada de emagrecer e algumas outras coisinhas que prefiro deixar pra lá e começar 2014 com mais firmeza.

Metas para 2014?
Minhas 30 resoluções:

Não está por ordem de prioridade, posso ir completando em ordem aleatória.

1) Sair do sobrepeso. Isso significa pesar abaixo de 62 kg. Ou seja, nos próximos 12 meses, tenho que diminuir 9 kg na balança.
2) Usar manequim 40. Atualmente estou no 44/46.
3) Ter a medida da cintura abaixo de 80 cm. Atualmente, 88.
4) Beber mais água, todos os dias.
5) Malhar pelo menos 144 vezes ao ano, o que daria uma média de 3 vezes na semana. Caso consiga ir mais, beleza. Se uma semana for apertada, vou mais vezes na semana seguinte.
6) Anotar todos os treinos e alimentações em uma agenda.
7) Correr 5 km em 30 minutos (na rua e na esteira)
8) Adeus refrigerante por um ano
9) Ir para a praia ao menos 6 vezes em 2014
10) Ler 10 livros
11) Fazer algum curso
12) Atualizar o blog toda a semana
13) Tirar mais fotos, imprimir mais fotos
14) Editar mais vídeos
15) Conhecer um lugar novo
16) Comer chocolate no máximo 1 vez por semana. Anotar quando comer.
17) Correr em algum parque ao menos 8 vezes no ano.
18) Me estressar menos
19) Comprar patins e voltar a andar
20) Participar de pelo menos 4 corridas de rua
21) Cozinhar receitas dukan e outras receitas mais saudáveis
22) Continuar trabalhando com o que eu adoro
23) Comprar uma sapateira e criados mudo.
24) Rir mais
25) Fazer as unhas com mais frequência (aprender de uma vez ou ir mais vezes ao salão rs)
26) Usar protetor solar e hidratante todos os dias
27) Assistir à uma peça de teatro
28) Ir mais vezes na piscina
29) Namorar/maridar muito
30) Me amar mais! Muito mais!

Bora lá! Que 2014 seja incrível! E quais são os seus planos para 2014?

Casório?! – Marian Keyes


CASRIO~1Há algum tempo venho, sempre que possível, lendo os livros de Marian Keyes. Já passei por “Melancia” (ainda não escrevi a respeito), “Férias“, “Sushi” e agora “Casório!”. Confesso que o título escolhido não tem nada a ver com a minha situação em breve e sim que fui pela ordem das obras publicadas aqui no Brasil.

“Casório?!” conta a história da irlandesa Lucy Sullivan, uma menina nos seus vinte e poucos anos, que divide o apartamento com duas garotas e trabalha em um lugar que detesta, mas que mata o tempo conversando com suas três amigas. A aventura começa quando uma dessas amigas decide ir, novamente, a uma taróloga. Quando chega a vez da nossa protagonista se consultar, uma surpresa: a taróloga diz que Lucy vai se casar.

Como? – se pergunta a garota. Casar com quem se o que ela mais tem é azar com os homens? É aqui que a história fica divertida. Lucy começa a procurar o homem que pode ser o escolhido. Ela conhece Gus, um músico desempregado, todo aventureiro e pão duro. Ele a deixa nas alturas no amor e pobre de bolso, porque o rapaz não abre a carteira por nada. Mas o amor é cego, não é mesmo, Lucy?

O livro é grande, 642 páginas, e em alguns momentos percebe-se que a história não se desenvolve, mas a leitura é agradável. Como está escrito em primeira pessoa, é possível imaginar que a personagem esteja sentada em um divã e nós somos os psicólogos que tentam entender o que se passa com ela. Confesso que em alguns momentos eu senti raiva de Lucy: inocente demais, não enxerga as coisas práticas da vida e é muito submissa à sua colega de apartamento e cega em relação à vida.  Mas, ao mesmo tempo, é por isso que gosto da Marian Keyes. Mesmo algumas histórias serem fracas, essa irlandesa me prende a atenção.

Achei interessante como a personagem busca afirmação da pessoas o tempo inteiro. Acredito que muitos passam por isso em uma fase de sua vida e isso fica claro na obra quando ela vai cuidar de seu pai e nega que ele seja alcólotra. Ela procura ser boa filha e quando vê, se anulou mais uma vez por causa de outra pessoa. Essa descoberta do “eu” dela é muito legal porque vemos o seu amadurecimento. E o clichê de desfecho da obra é muito bom, mas não irei contar aqui senão perde a graça. Afinal, Lucy Sullivan vai se casar?

Pensando bem, eu TAMBÉM prefiro ser magra!


Este post é dedicado à minha leitura do livro “Pensando bem, prefiro ser magra”, da Camilla Pires, autora do blog pensandomagro.net no qual ela conta como emagreceu mais de 20kg.

Antes de entrar no âmbito do livro, quero falar como conheci o blog dela. Acho que, como toda mulher, eu sempre fui encanada com o peso. Tudo bem que nunca fui obesa, mas sempre tinha aquela coisa de “ah, queria emagrecer mais alguns kgs”, mas de uns anos para cá eu percebi um aumento de peso forte na minha vida.

Tudo começou quando entrei na faculdade de jornalismo. Sim, a rotina mudou. Até então eu ia para a escola a pé, fazia aula de educação física etc. Olhando as minhas fotos, realmente eu não era assim gordinha, estava até no peso considerado normal, mas tinha aquela barriguinha de tanto comer porcarias.

Com a faculdade a balança foi subindo. Ainda mais quando comecei a estagiar. Tive os meus primeiros trocados e gastava quase tudo em comida: café, pão de queijo, chocolate, o famoso pastel da PUC às terças de manhã…saídas com o namorado sempre envolviam gordices. Terminei jornalismo com quase 60kg. Para os meus 1,59 m ainda era considerado normal, mas estava ficando incomodada.

A coisa piorou quando entrei no curso de rádio e tv à noite e passei a trabalhar em período integral. Comecei a engordar muito e no ano de 2011 eu descobri o blog da Camilla enquanto procurava no google algumas dicas de como emagrecer. Eu li o blog dela muito rápido e percebi que a saída era reeducação alimentar. Mas eu fui teimosa e tentava dietas doidas, do tipo de ficar sem comer, mas na semana seguinte atacava o Mc Donalds. Ou pior, comia regrado um dia e detonava no outro. Cadê a reeducação? Sei lá onde ela andava…

Fui em médicos, fiz exames e só via a minha saúde indo para o saco. Eu tentava emagrecer, mas a força de vontade ia embora rapidinho. Era emagrecer 2kg que voltava a comer como uma porca.

O resultado? Iniciei 2013 com 70,1kg! O maior peso que tive na minha vida.  E pra completar estava no que chamam de sobrepeso. Nem fiz a minha avaliação física na academia porque eu sabia que a gordura estaria gritando “achei você, achei você”.

Foi um choque tão grande entrar na casa dos 70 (tenho 1,59m) que dei um basta. Estou com casamento marcado e não quero olhar para o meu álbum e me ver gordinha. Sem contar que estou no melhor momento da minha vida, por que ficar deprimida com um corpo que sinto vergonha? Por que ficar chateada que tem gordura saltando da calça? Por que ter vergonha de usar biquini? Por que não posso correr de shorts senão as coxas assam?

E eis que a Camilla lança o livro “Pensando bem, prefiro ser magra”. Obviamente que comprei. Mas antes de começar a ler, eu já tinha enfiado na minha cabeça que EU precisava mudar. Não adiantava culpar a minha mãe pelas deliciosas gordices que ela prepara, ou pelo brownie com sorvete que a lanchonete vende ou pela infindável quantidade de frituras à minha disposição e muito menos brigar com o noivo toda vez que fôssemos comer fora de casa. A mudança tem que ser minha. Partir de mim e de mais ninguém. O mundo não conspira contra mim, eu que conspirava contra mim mesma.

Aos 28 dias após largar a fritura, fugir dos doces e evitar qualquer coisa que poderia ser ruim para o meu emagrecimento, tomei coragem para ler o livro. Digo coragem porque eu sabia que seria um tapa na minha cara.

E foi! Ler o livro dela foi quase como me ver ali. Sim, temos histórias diferentes, mas os motivos para engordar e fingir que aquilo não estava acontecendo comigo, foram os mesmos. As desculpas para não emagrecer, as mesmas. As dificuldades emocionais na adolescência, também. É um livro muito fácil de se identificar, ainda mais quem quer emagrecer.

Eu sempre quis emagrecer, mas será que queria mesmo? Foi essa pergunta que me passou pela cabeça enquanto lia. O que eu fazia para mudar a minha atitude? Nada! Qual era o meu foco? Onde estava a minha força de vontade? Percebi que não tinha o “meu motivo forte” para querer mudar.

Ela passou pela morte do pai e deu a volta por cima. Eu tenho o meu pai, lindo ao meu lado. Eu precisaria de um baque desse para acordar pra vida? Não! Não é possível! Eu preciso acordar antes.

Eu comecei a minha reeducação alimentar no dia 2 de janeiro de 2013, inicialmente pensando no vestido de noiva, mas já estou sentindo que dentro de mim está nascendo uma força maior: a de ser saudável. E o meu desejo para 2013 é esse: saúde!

Quem me conhece de perto ainda fala que não estou assim tão gordinha. Mas eu me sinto um balão e sei que dentro de mim as coisas não devem estar assim tão lindas. Este livro me deu o chacoalhão que eu estava procurando.

Agora, falando do livro:

É uma delícia de ler. Parece que ela está sentada na sua frente contando a vida dela. É uma linguagem simples, de mulher para mulher, um depoimento sincero de uma pessoa que está na sua luta e que vê a luz no fim do túnel. É um ser humano comum falando dela mesmo. Existe algo mais verdadeiro do que isso? Algo mais fácil de se acreditar? Por isso que o blog e o livro são sucessos.

Tive que concordar com muitas coisas que ela escreveu ali, principalmente com a parte da aceitação social. Pra mim, tudo aquilo é verdade. Sim, eu acredito que as pessoas mais saudáveis são melhor aceitas pela sociedade, mas digo isso porque elas mesmas se aceitam.  O gordinho que se sente incomodado, fica acuado, o saudável não tem medo de ser feliz. E eu? Quando vou começar a me aceitar? Preciso mudar a minha mente, a começar a pensar magro.

É uma grande lição: nós podemos mudar sim! Só cabe a nós mesmos. Resolvi mudar. Pode demorar para eu chegar ao meu estado físico imaginado, mas o segredo é não desitir. Reeducação alimentar é todos os dias, toda hora, cada segundo da minha vida. O segredo para dar certo? Encontrar o seu foco! E espero ter encontrado o meu.

Por isso que eu também prefiro ser magra.

Ler “Férias” antes de entrar de férias


Depois de ter lido “Melancia” e “Sushi” da autora Marian Keyes chegou a hora de conferir “Férias”.

 Eu já estava namorando este livro a um bom tempo e tinha até comprado a versão pocket para ler, mas com a correria do dia a dia, acabei deixando de lado. Eis que no início da semana passada ele me olhou, eu olhei pra ele e não teve jeito. Tive que começar.

O efeito foi como as duas outras obras: viciante. Dormi menos horas e a todo tempo que tinha, eu parava para ler nem que fossem apenas
dois capítulos. O engraçado é que o livro trata justamente de vício. Rachel, que por sinal é irmã de Claire do romance Melancia,
é uma garota de Dublin que vive com uma amiga em Nova Iorque. Tem um trabalho escroto, vive atrás de homem e não entende porque nunca consegue ser feliz.

Desde o início, já somos apresentados a esta personagem como alguém que usa drogas de vez em quando. No caso dela é a cocaína. Mas como o romance se passa no ponto de vista dela, temos que ler nas entrelinhas para entender que de fato ela é uma viciada. Na tentativa de salvar a vida de Rachel, sua família, namorado e amiga fazem uma intervenção e a mandam para o Claustro, uma casa de reabilitação em Dublin.

Aqui a semelhança com o filme “28 dias”, estrelado por Sandra Bullock, fica bem claro. Por mais que procurasse, não encontrei nada que
ligasse este filme ao livro de Marian Keyes. O que eu mais gostei do livro é como a narrativa se apresenta. Ora acompanhamos o presente de Rachel, ora vem uns flahsbacks da vida dela. Isso fica mais intenso quando ela começa a se conscientizar de que é uma toxicômona.

Outra parte interessante é quando mostra as sessões de terapia. As reações que a personagem tem por causa da atitude da psicóloga me
renderam muitas reflexões e a maneira como Rachel reage a algumas coisas me deram boas risadas.

O desfecho é bem clichê, mas não desaponta. Você espera por ele. Eu considero este livro mais uma leitura de metrô. Fácil, gostoso e simples.
Boa distração para o dia a dia ou linda reflexão sobre como vivemos a nossa vida.

Mal posso esperar para ler comprar mais um livro da autora.

Dogville e a influência de Brecht


Mais um vez trago um trabalho que fiz com a Bruna Marques e Mayara Picoli para a Cásper Líbero. Desta vez, tínhamos que encontrar algum filme que apresentasse características do dramaturgo Bertolt Brecht e analisar como apareciam no cinema. Pois bem, escolhemos Dogville (2003), dirigido por Lars Von Trier.

Já vale lembrar que se você não gosta de spoilers,  pare de ler agora.

Antes de começar, confira o trailer do filme.

Quando o cinema nasceu com os irmãos Lumière, acreditava-se que ele servia pura e simplesmente para retratar a realidade. Com os planos gerais e câmeras fixas, víamos toda a ação acontecendo diante de nós como se fôssemos a quarta parede de uma sala, justamente como acontecia com o teatro clássico. Não demorou muito para que o cinema conseguisse a sua própria linguagem e inovasse com o passar do tempo.

O modelo clássico é o mais seguido e referenciado, assim como aconteceu no teatro. Cenários exuberantes, atores famosos e trilhas encantadoras nos fazem mergulhar de tal forma na tela que nem percebemos que tudo não passa de uma montagem de imagens que, unidas, fazem algum sentido. Às vezes até esquecemos dos planos e enquadramentos e nos vemos ali no meio da história.

Como Alfred Hitchcock já disse inúmeras vezes, o ser humano é voyeur e é isto que garante que as pessoas fiquem horas diante de uma tela sendo enfeitiçados pela história.  De certa forma, este encantamento também apareceu no teatro clássico. Mesmo com a distância da poltrona ao palco, somos engolidos pela fantasia de tal forma que pertencemos a ela.

O que vemos ali, no palco ou na tela, não chega a ser um retrato da realidade, como os criadores do cinema acreditavam, mas mesmo assim tendemos a acreditar que aquilo é real.

Entretanto, existiu um escritor e dramaturgo alemão que decidiu quebrar este paradigma de representação da realidade e nos lembrar constantatemente de que o que estamos vendo é uma peça de teatro: Bertolt Brecht. Para ilustrar as suas ideias, escolhemos o filme Dogville (2003), dirigido por Lars von Trier.

A maneira utilizada para filmar Dogville é o aspecto mais característico de Brecht. O filme foi rodado em um estúdio fechado e sem cenário, apenas com riscos desenhados no chão representando as casas e ruas do vilarejo. Até o cachorro é um desenho no chão, bem como a referência à cadeira de descanso e os arbustos, uma clara referência também ao cachimbo de Magritte.Isso já questiona se o que vemos é de fato a realidade ou uma representação dela.

No cinema e no teatro, isso nos faz lembrar que estamos assistindo a uma peça/filme e não que estamos vendo a história real.

Os atores circulam sobre a planta da cidade e atuam como se houvesse objetos invisíveis aos nossos olhos, sem paredes e portas, apenas com alguns móveis. É como uma criança que brinca de faz de conta e desenha uma casa no chão e passa a atuar nela como se fosse real.

A sonoplastia ajuda nossa imaginação quando a porta realmente faz barulho ao ser aberta pelos personagens.

Esta estética usada no filme mantém o espectador sempre ciente de que é uma representação da realidade. Todo filme foi gravado em um galpão da Suécia, o que remete ao teatro caixa preta de Brecht enquanto que a atuação dos atores com os objetos imaginários remete ao teatro do absurdo do dramaturgo.

Dogville é um pequeno vilarejo isolado no alto das montanhas e de difícil acesso. A história mostra a rotina sossegada dos poucos habitantes do lugar, cada um com suas manias e conformismo. Thomas Edson Jr. é o único personagem que não se conforma com a situação pacata das pessoas e promove reuniões moralistas para comunidade refletir sobre suas ações, com o intuito de promover o bem no mundo.

O nome Dogville significa vila do cão, mas em um sentido mais subjetivo, diz que os habitantes desta vila agem como cães por instinto uma vez que o contexto da Grande Depressão trouxe miséria a algumas cidades. Brecht ressaltava que as causas podem levar às consequências diferentes porque o ser humano é capaz de fazer escolhas, vê-se isso em Dogville pela submissão de Grace e depois pela vingança.

Baseada no distanciamento entre público e personagem proposto por Brecht, o filme trabalha a história como um componente para reflexão e didática, apresentando um caráter não-ilusório e colocando os espectadores fora de ação para interromper identificações.

As ações acontecem frente às câmeras e, simultaneamente, as outras casas e personagens são exibidas ao fundo, provocando estranheza para quem assiste, mas é a melhor maneira de interromper a ilusão e trazer reflexão, pois acentua momentos dramáticos.

A narração em “off” acentua ainda mais que se trata de uma história sendo contada ao público, assim com a divisão em capítulos, que se assemelha ao teatro e à história, ou seja, é  o narrador quem controla e da voz aos personagens. Brecht tinha um narrador que interrompia a ação e Von Trier também faz isso, comandando às vezes até a fala do personagem.

A principal característica encontrada no filme é a descontinuidade. Fica bem aparente como o diretor faz isso, pois coloca um letreiro informando o número do capítulo e o que irá acontecer, algo que é comum ao teatro Brechtiano. Enquanto muitos buscavam fazer as pessoas se sentirem no filme, Brecht fazia de tudo para que isso não acontecesse em suas peças.

No filme, apesar de seguir uma ordem cronológica dos fatos a divisão dos capítulos causa uma quebra, fazendo com que nos lembramos de que estamos assistindo a um filme. Nos momentos em que começamos a nos acostumar e ficamos compenetrados, os letreiros aparecem fazendo-nos lembrar de que aquilo não é real, é apenas uma história.

Por mais que os cenários não sejam comuns, chega a certo ponto no filme em que nos esquecemos disso, o cenário fica algo insignificante e nos tornamos atraídos pela narrativa. Quando aparece o número do capítulo, nossa concentração acaba por um momento e voltamos à realidade.

Devido a sua experiência de vida, Brecht adquiriu uma posição de luta pelos oprimidos, retratava de forma cênica as diferenças entre classes sociais e a injustiça do mundo. Podemos identificar essa estética na obra “O círculo de giz caucasiano”, onde a protagonista Grucha luta por Miguel, o menino de sangue real abandonado, o qual ela salvou da guerra e adotou com filho.

Nesta peça, Brecht representa as diferenças entre ricos e pobres e o caráter social deles. Ele sempre abordou temas que pudessem ser reconhecidos pelos espectadores e que trouxessem subjetividade.

Já notamos semelhanças entre o livro e o filme. A primeira referência se dá que o primeiro trata da situação das pessoas durante a Revolução Russa e o segundo da Grande Depressão. De certa forma, Von Trier e Brecht abordam a reação das pessoas simples diante de eventos de grande magnitude nos quais eles só fazem parte do cenário e não possuem voz ativa.

Em relação às personagens, há certa semelhança entre a personagem Grucha do livro “O círculo de giz caucasiano de Brecht” e Grace do filme “Dogville”. As duas estão durante toda a história fugindo de alguém. A diferença é que com Grucha conseguimos saber de quem e o motivo de sua fuga, já com Grace sabemos de quem ela foge, mas o porquê permanece um mistério durante todo o filme.

Ela chega à pequena cidade e começa a ajudar a todos, querendo ser agradável e permanecer por lá, enquanto Grucha ajuda o menino, vê que ele não seria bem tratado se continuasse com a verdadeira mãe e então foge com ele. Por mais que existam diferenças significantes em cada uma, a maneira como estão se preocupando com o outro cria uma semelhança entre as personagens.

Outro aspecto é que nas duas histórias há julgamentos em que nem sempre o que todos dizem ser o certo acontece. Em Dogville, primeiro Grace é julgada para que fique na cidade e as pessoas concordam mesmo sabendo que ela é uma fugitiva.

Depois, no final do filme ela julga as pessoas que maltrataram ela, matando todos e pensando que será melhor assim, não só para ela como para toda a humanidade eliminar aquela cidade, para que outros não sintam o mesmo que ela sentiu quando chegou.

No livro de Brecht o juiz impõe o veredicto que pensa ser o certo para ele, não de acordo com o que a humanidade e nossos costumes dizem ser o certo.

Quando resolve que o menino irá ficar com Grucha, por exemplo, o certo é que ele devesse ficar com a mãe verdadeira, mas o juiz acredita que Grucha fará o melhor por ele já que passou por tantas dificuldades e não puxou os braços dele no momento em que estava sendo julgada.

O cenário também dá a ideia do teatro. Na verdade não é o clássico cenário para cinema, mas  é como se fosse uma maquete do que seria o cenário. O fato de toda a história acontecer em um mesmo local, lembra uma peça teatral, na qual os personagens que saem da cidade ou até mesmo aqueles chegam, só aparecem no momento em que estão nela realmente.

Não conseguimos saber o que acontece fora de Dogville. Até mesmo na cena em que Grace tenta fugir, só conseguimos ver ela deitada na traseira da carreta, e ela falando o quanto está andando, temos apenas a impressão de que ela saiu e está se deslocando, mas em nenhum momento vemos isso realmente.

Mas por que Lars von Trier seguiu as ideias de Bertold Brecht? Porque ele fazia parte do Dogma 95, movimento cinematográfico revolucionário que exigia não usar cenários, nem trilhas sonoras e a câmera deve estar sempre nos ombros do cineasta. Isto explica os movimentos bruscos com a câmera, imagens meio tremidas e cortes descontínuos.

Entretanto, Von Trier usa iluminação artificial, gruas para as tomadas do alto e de certa forma possui cenografia, mesmo que não seja exuberante, e isso contraria os princípios do manifesto ao mesmo tempo em que vai ao encontro às ideias de Brecht.

Tudo isso para reforçar que estamos vendo uma representação da verdade como um faz de conta, assim como você está lendo um recorte do filme analisado a partir de dramaturgo, o que significa questionar: este texto é real? Ou uma representação dele? Será que deveríamos ter cortado ele, colorido e feito diversas coisas estranhas para você lembrar que está lendo isto? Brecth e Lars von Trier teriam feito, certeza.

Leitura de metrô: “A cabana”, de William P. Young


Capa do livro

Andar de metrô é uma ótima maneira para saber quais livros estão na lista dos mais vendidos. Muitas vezes eu nem reparo nas capas abertas, mas teve um livro que se destacou: “A cabana”, de William P. Young. Lançado em 2007 pela editora Sextante,  já foram vendidos mais de 7 milhões de exemplares no mundo inteiro.

Foram alguns meses observando as pessoas com os olhos pregados nesta obra sem se preocupar com o empurra-empurra do horário de pico. Foi isso que chamou a minha atenção.

Eu adoro ler livros que te sugam dessa forma, que fazem você esquecer onde está …são os que eu chamo de “Leitura de metrô”. Confesso que demorei para comprar, foi preciso um descontão da livraria para finalmente começar a ler este livro.

A capa dele é linda, tem um gráfico impressionante e as folhas são daquelas texturas fáceis de ler e virar páginas, de modo que é possível esquecer que está lendo o livro e, assim,  acabo entrando de corpo e alma na história.

“A cabana” conta a história de um pai cuja filha desapareceu e o único resquício foi a roupa ensaguentada da menina dentro de uma caverna velha e abanadonada. A editora coloca na sinopse que a história começa quando este pai, Mackenzie Allen Phillips, recebe um bilhete supostamente de Deus para que ele volte a cabana.

Até aí parece um romance espírita ou coisa do gênero. Eu diria que até se encaixa, mas conforme fui lendo não chego a concordar que parece uma oração, mas literatura mesmo. Daquelas bem fantasiosas capazes de criar lindas imagens enquanto você lê.

Tem muita gente que não gostou, mas para mim foi muito especial, me tocou profundamente até que chorei por causa de algumas partes, sem contar que refleti sobre a minha vida em alguns aspectos. Calma, não é livro de auto-ajuda. Eu encarei como um lindo romance, uma história de amor e vingança da morte da própria filha.

A partir daqui o texto passa a ter spoilers

Quem não gostaria de receber as respostas que tanto busca? Ou de ter uma conversinha com Deus tête-a-tête para entender por que coisas ruins acontecem com você? É aí que o livro se torna mágico.

Não se desespere, não há nenhuma religião defendida pelo livro, ao contrário, ele questiona para que serve uma religião se a pessoa não deixa Deus habitar dentro de si.

O interessante para mim foi que muitas das perguntas do personagem, principalmente quando ele se revolta, já se passaram para a minha cabeça e o livro, de certa forma, dá uma resposta. Ela não precisa ser necessariamente a verdade revelada num livro, mas despertou a consciência para avaliar melhor os aspectos da minha vida.

Eu fico imaginando como seria um filme adaptado deste livro. Certamente teria a melhor fotografia, pelo menos na minha cabeça, claro. Quem sabe não vai para as telonas?

Se interessou pela leitura? Vá sem preconceitos e deixe as palavras te envolverem. Deixe as suas crenças de lado, ainda mais se for descrente, e encare um livro sobre o sofrimento de um pai que perde uma filha.

Se você já leu, comente aqui o que achou.

O clube de Nietzsche


Lendo o post de Camila Fink a respeito do filme “O Segredo de teus olhos” me deparei com uma citação de Nietzsche e logo lembrei que em 2009 fiz em grupo um trabalho de comparação entre o filme “Clube da Luta” (1999) e o pensamento nietzscheano. E hoje, uma das componentes do grupo me pede para reenviar o trabalho. Aí pensei: “ah, vou colocar no blog também”.Então, segue abaixo o trabalho escrito por: Bruna Marques, Bruno Ravagnani, Livia Di Bartolomeo e Mayara Picoli Rafael. Se você não gosta de spoilers, pare de ler agora.

Lavar o consumismo da sociedade de massa

A primeira vista “Clube da Luta” (Fight Club, 1999, EUA) do diretor David Fincher parece ser mais um filme superficial no qual o grande foco são as lutas para todos os lados, para a alegria dos rapazes, e a figura do Brad Pitt, para a felicidade feminina. Entretanto, uma olhada rápida na sinopse instiga as possíveis mensagens implícitas já na capa do dvd cuja imagem mostra um sabonete e o nome do filme.

Esta é a história de Jack (Edward Norton), um investigador de seguros de uma grande empresa automobilística. E logo no início do filme encontramos esse personagem redecorando a casa a partir de catálogos de móveis. E o que poderia ser algo fútil se torna interessante na medida em que ele reflete sobre o ato viciado de preencher os espaços vazios de sua casa. Jack se vê apenas como mais um escravo do consumismo que comprava tudo o que achava interessante sem saber o motivo, seguindo sempre mais um valor estabelecido pela sociedade. E para melhorar a nossa perspectiva, o personagem sofre de insônia.

Com o diálogo “…quando se tem insônia você nem dorme nem fica acordado direito.1”, Nietzsche remete este mesmo comportamento aos cristãos porque, para ele, os fiéis estão em um constante estado dormente de rebanho já que não vivem a vida plenamente por idealizarem um além-túmulo – vida após a morte-, ou seja, vivem de modo passivo sem seguir seus instintos e vontades, como são os cordeiros de um rebanho.

Esta moral de rebanho, submissão de modo irrefletido aos valores dominantes da civilização e da burguesia, é criticada por Nietzsche. A ação de Jack ao comprar todo o catálogo reflete o pensamento nietzschiano de que não somos seres humanos livres. Assim, o filósofo desenvolve o seu conceito de niilismo como uma não-crença em nenhuma verdade, moral ou hierarquia de valores pré-estabelecidos. A recusa, ou “reveja os seus valores e ouse ser você mesmo” é mais tarde retratada no filme a partir do personagem Tyler Durdern (Brad Pitt).

Quando Jack busca o médico para tratar sua insônia, é aconselhado a frequentar grupos religiosos de apoio às pessoas com câncer para que ele entenda o que é sofrimento de verdade. Deste modo, fica evidente que a sociedade está impregnada com o valor cristão de que a igreja é a única que acolhe os fracos e desesperados.

Em um desses grupos Jack conhece Bob, um portador de câncer nos testículos que devido ao tratamento desenvolveu mamas, de forma a parecer seios femininos e, ao descrever Bob, diz: “…entre aquelas enormes tetas suadas, enormes, tão grandes quantos Deus (…)”2, como uma metáfora do tamanho do poder de Deus e da Sua influência na sociedade cristã.

No filme, há dois personagens muito importantes, Marla (Helena Bonham Carter) e Tyler. Comecemos com Marla. Para o grupo esse personagem remeteria ao mito da caverna de Platão, pois ela entra na caverna das ilusões (grupos de apoio) e resgata Jack à sua realidade. Graças a ela, Jack deixa de se enganar e não acha mais conforto dentro dos grupos. Neste momento ele conhece Tyler, outro ponto em que a filosofia de Nietzsche aparece na tela.

Com Tyler, Jack é apresentado a uma nova forma de ver a vida, pois segundo o personagem a autodestruição é o que faz realmente a vida valer a pena e o homem não deve aceitar simplesmente o que lhe é dito e imposto. Esta é uma visão como o niilismo de Nietzsche, pois “um niilista é um homem que não se curva ante qualquer autoridade; nem aceita nenhum princípio sem exame, qualquer que seja o respeito que esse princípio envolva”3.

O fato de o personagem possuir uma empresa de sabonetes dá margem à interpretação de que ele veio para limpar Jack da sujeira da submissão. Esta limpeza é perceptível quando ele muda o seu comportamento conforme fica mais íntimo de Tyler.
Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, escrito em 1872, apresenta duas tendências básicas humanas de comportamento que entram em conflito: a tendência apolínea e a dionisíaca. A primeira é aquela que leva o homem a ter um desejo de ordem em sua vida, onde tudo possa ser o mais cristalino e claro possível e, segundo Nietzsche, esse comportamento era representado por Apolo, o Deus Sol, Deus da verdade, da moderação e da individualidade, do lazer, do repouso, da emoção estética e do prazer intelectual.

A outra tendência é a dionisíaca, que levava o homem a atos irracionais e selvagens. Nietzsche afirmava que esse comportamento era representado por Dionísio, Deus do vinho, das festas, dos bacanais.  Em outro livro, Ecce Home, Nietzsche afirma que “a realidade nos mostra uma encantadora riqueza de tipos, uma abundante profusão de jogos e mudanças de formas” e é exatamente a partir deste excerto que surge o clube da luta.

Jack, que sempre fora uma pessoa pacata e que seguia os valores estabelecidos pela sociedade, passa a se tornar uma pessoa que vê na violência e na selvageria uma forma de crescimento pessoal. Então, quando Tyler aparece sabemos que isso acontece por causa da necessidade de Jack de ter maiores alegrias em sua vida banal e rotineira. Tyler o incentivará rumo a ultrapassagem dos limites do certo e do errado e o Clube da Luta era o local onde aqueles homens revelavam seus verdadeiros instintos de animal e assumiam a vontade do poder e da força, era o local onde eles podiam ser eles mesmos, sem máscaras e também uma briga espiritual, a revolta contra a depressão que é a vida cheia de leis morais impostas aos homens.

As brigas podem ser vistas como uma forma de extravasar os instintos aprisionados pela moral burguesa, como se apanhar e bater transformasse Jack em indivíduo novamente, só que desta vez um ser humano livre. Mas, apesar de possuir características niilistas, Jack também cumpre regras, pois no Clube da Luta elas existem e são rigorosas e devem ser seguidas por todos, em quaisquer circunstâncias.

Outro momento que Jack segue e se vê vítima das regras, é quando ele inicia o Projeto Caos (para Nietzsche, os instintos humanos são o próprio caos), no qual os participantes estão proibidos de comentar com qualquer pessoa que não faça parte do projeto e, levado às ultimas consequências, Jack é quase castrado, já que essa era a regra para alguém que denunciasse a polícia sobre o Projeto, que tomou tamanha proporção que até mesmo os policiais faziam parte dele.

Ao tentar se desvencilhar deste novo rebanho, Jack percebe que Tyler não existe de verdade, mas só dentro da sua mente, o personagem de Brad Pitt é o alterego de Jack, porque ele exterioriza todos os sentimentos que estavam adormecidos. Na sociedade moderna o homem busca constantemente objetos que o definam como indivíduo, como o caso de Jack ao comprar móveis nas primeiras cenas do filme.

Esta busca reforça que o consumo é um modo de libertação, ou seja, com o capitalismo é possível gozar de felicidade por meio da compra. No filme, Jack não alcançou o gozo pelo catálogo, mas sim por meio do seu alterego. O problema está no fato de que assim como o consumidor fica preso aos produtos, o personagem se vê preso à Tyler, como um vício já que ele realiza todos os seus desejos sem frustrações.É como o cristianismo para Nietzsche, um vício do qual as pessoas não se livram. Entretanto, Jack assume uma postura nietzschiana e ousa a ser a si mesmo, matando seu alterego, dando um tiro em si mesmo, tornando-se livre.

Veja o trailer do filme

1Fala do personagem Jack. Retirado do filme “Clube da Luta”, 1999
2 idem
3 Retirado de http://ateus.net/wiki/index.php?title=Niilismo. Acessado em 15 de setembro de 2009.

 

Texto publicado no site da Cásper Líbero.

Um olhar sobre “Crepúsculo” e “Lua Nova”


Eu lembro muito bem que quando era criança não gostava muito de paródias. Pra falar a verdade eu não gostava porque geralmente não conhecia a obra original. Hoje é diferente e por causa disso resolvi falar de duas em especiais.

As obras originais são as adaptações cinematográficas de “Crepúsculo” e “Lua Nova”. Sem entrar no mérito se os filmes e livros são bons, vim aqui destacar a criatividade de duas irmãs, Hilly e Hannah Hindi. Elas ultrapassaram o limite de fãs.

As paródias delas são muito criativas, cheia de humor, mas conservam o essencial de cada história. Para quem não sabe, as duas usam apenas uma câmera e são elas mesmas quem filmam, atuam e editam. Obviamente que tem uma grande equipe por trás, mas a grosso modo, o trabalho é delas. O sucesso foi tanto em “Crepúsculo” que a Summit liberou o uso do carro de Bella e alguns cenários para que elas fizessem a paródia do “Lua Nova”. É mole?rs

A fama delas está crescendo e novas paródias como Batman já foram ao ar. Quem sabe ainda o que vem por ae. Para ficar por dentro do que elas vão aprontar, entre no site “The Hillywood Show“.

Me despeço deixando os dois vídeos aqui para quem curte a saga “Crepúsculo”

Crepúsculo

Lua Nova

Lolita ganha vida na adaptação de Stanley Kubrick*


Atenção: ESTE TEXTO TEM SPOILERS

É muito comum as pessoas assistirem a um filme adaptado de romance e dizerem que não gostaram. Obviamente há uma grande diferença entre as linguagens visual e literária e é necessário entendê-las para apreciá-las. Este é o caso de Lolita, de Vladimir Nabokov, lançado em 1955, e o filme homônimo de Kubrick, de 1967.  Apesar das diferenças, os enredos tratam da mesma história: um intelectual europeu de meia-idade envolvido em assassinato e ninfolepsia, um grande escândalo para os anos 50.

No livro, a narrativa é construída por meio das recordações do narrador-personagem em primeira pessoa. Em razão disso,  a versão  é altamente duvidosa porque só se conhece os fatos e os outros personagens a partir do seu ponto de vista, logo é necessário ler nas entrelinhas. É uma confissão totalmente solipsista, porque ele justifica todas as suas ações e extrapola no egoísmo, já que não pensa em ninguém além de si mesmo e nunca dá voz aos outros personagens. O resultado é uma obra literária cheia de armadilhas, pois usa um estilo elegante para falar de coisas escabrosas, como pedofilia.

O autor pega temas chocantes e os coloca com uma tal complexidade que é provável que muitos leitores deixem de sentir repugnância e passem até a simpatizar com o personagem. Isso é reflexo da escolha das palavras utilizadas por Nabokov que, apesar de simples, são trabalhadas como as pedras preciosas tratadas pelos ourives. O texto é rico em metáforas, apresenta descrições claras que geram a sensação de estar assistindo a um filme, até o leitor lembrar que se trata de um livro. Além disso, muitas passagens são verdadeiros poemas em prosa, o que o torna encantador.

Os personagens são espelho da sociedade dos anos 50. Humbert, o narrador – personagem, um intelectual europeu de meia-idade que viaja à Ramsdale para ser professor em uma universidade e apaixona-se por Lolita, uma menina de 12 anos que adora história em quadrinhos e desdenha os filmes estrangeiros. Há também Charlotte, mãe da garota, uma típica americana de classe média que acredita ser culta por consumir tudo o que vem da Europa, pintura, frases em francês, empregados negros, religiosidade exagerada, inclusive Humbert. O protagonista vive um “romance” com Lolita, mas, após várias ameaças, acaba perdendo-a, levando a estória a um desfecho trágico.

Chama a atenção o fato de o narrador escrever de dentro de uma prisão porque matou um homem – iremos descobrir mais tarde o motivo -, por ser a historia de um encontro entre o Velho, Humbert, e o Novo Mundo, a menina. O casamento com Charlotte serve para ele ficar mais próximo de Lolita, mas a morte da esposa no momento em que ela descobre as intenções do marido cria uma situação que é um tabu pouco explorado pela literatura séria.  O enredo resultou em duas adaptações para o cinema, uma em 1962, dirigida por Stanley Kubrick, analisada neste trabalho, e a outra em 1997, por Adrian Lyne.

Vale a pena ressaltar a harmonia existente no filme, ou seja, a normalização no relacionamento entre Humbert e Lolita. Destoa do roteiro original porque no romance de Nabokov não tem nada que possa ser inserido nos padrões de um “namoro comum”. Kubrick retirou as cenas de sexo – na película há só a intenção implícita por meio dos cochichos da menina ou através dos cortes subjetivos da câmera- e o motivo seria a censura. Tudo porque na época em que “Lolita” foi filmado, a sociedade estava impregnada por  valores morais muito fortes. Se este assunto era delicado para o final dos anos 60, imagine-se quando Lolita foi escrito. O livro foi considerado pornográfico e o autor encontrou dificuldade para publicá-lo. Para evitar o mesmo destino, Kubrick encontrou outras saídas que, para quem não leu o livro, não prejudicassem o entendimento do filme.

Outra diferença na adaptação foi a omissão do narrador, pois no livro este é um papel fundamental, uma vez que o leitor é duvida da sinceridade de Humbert, enquanto que, no filme, o espectador é “levado pela mão”, quase sem chances de desconfiar de sua integridade. E os quatro momentos em que aparece voz over são de caráter informativo, como explicar para onde estavam indo após um corte temporal feito pela câmera, ou dizer que o casamento com Charlotte aconteceu, sem precisar mostrá-lo,  e isto prejudica o brilho da obra, porque a história deixa de parecer a versão de Humbert e se torna uma realidade quase incontestável sob o ponto de vista do espectador.

Apesar disso, a obra cinematográfica tenta uma aproximação ao enredo original quando Stanley Kubrick opta por uma narrativa circular. Assim como no livro, sabe-se o final do filme a partir das cenas iniciais. Isso introduziu um novo olhar para Humbert, o de assassino. Desta vez sabe-se o nome da vítima do crime, Clare Quilty, mas não o motivo. Esta inversão do enredoo é o mote do filme, cuja construção foi feita para que seja descoberto o motivo do crime.

O personagem Quilty ganhou destaque e passou a ser a voz dissonante na narrativa, dando vida ao filme. Assim como em William Wilson, de Edgar Allan Poe, ele pode ser Humbert Humbert, quando analisado pela psicanálise.

O brilho do filme está no fato de que não é possível suprimir os outros personagens, como Charlotte e Lolita, pois elas aparecem de “carne e osso” na tela e falam, mantendo as personalidades descritas no romance pelo escritor. Também foram reproduzidos muito dos diálogos, mas em razão do tempo fílmico e da pouca importância na história original, alguns personagens foram retirados, sem comprometer o entendimento. Com exceção de Lolita, que teve que ser mais velha por causa da censura, a caracterização dos personagens foi fiel ao livro.

A música tem um papel interessante, pois marca o ritmo daquela sociedade que vivia com poucas mudanças estruturais em seu dia a dia. A mesma trilha se repete ao longo do filme inteiro, assim como o comportamento das personagens. Ela só muda quando há mudança de curso. A fotografia e a luminosidade auxiliam para a construção do clima, com predominância de luzes “chapadas”, como se fosse para o espectador se concentrar na atuação, principalmente na cena do assassinato de Quilty. Nota-se que ela é expressionista pelo desempenho do ator e não pela luz, como era comum neste tipo de vanguarda cinematográfica.

Os movimentos de câmera vão por esse mesmo caminho, mas com algumas particularidades quando, por exemplo, mostram os olhares dos personagens, como as cenas de “voyeur” de Humbert, chamada de câmera subjetiva.  Os enquadramentos facilitaram a interpretação da ocorrência das relações sexuais e a enganar o moralismo do público.

Além disso, o diretor mostra, por meio de travellings e longos planos-sequência, casas, cômodos, objetos, roupas e penteados, festas e comportamento dos personagens desta sociedade ritmada de forma um tanto humorística.  O humor está presente em diversas cenas, como a armação do catre no quarto do hotel, a fala acelerada de Quilty e a repetição da palavra “normal”, quando este encontra Humbert pela primeira vez após a fuga de Ramsdale, e as piadas eróticas de duplo sentido, como as brincadeiras de Lolita no acampamento.

O que importa ressaltar é que Lolita, de Vladimir Nabokov, teve tanto impacto que, mesmo quem não sabe do que trata a obra conhece o significado da palavra ninfeta e do próprio nome da garota. É um clássico da literatura que deve ser lido ou ao menos assistido para ver o brilhantismo dessas duas figuras: Stanley Kubrick, no cinema, e Nabokov, na literatura.

Veja o trailer do filme de Stanley Kubrick

*Este foi um texto que fiz para o trabalho para a Cásper Líbero (Língua Portuguesa)