#11 No transporte público


Sufoco

Às vezes sentimos a necessidade de compartilhar algo com alguém, mesmo que seja desconhecido. Em uma segunda-feira, às 23h00, quatro jovens se dirigiam ao metrô após o primeiro dia de aula de um curso extracurricular. Alguns já se conheciam, outros aproveitaram o transporte para conversar um pouco antes de seguirem rumo às suas estações.

Por causa do horário, se livraram do pico, mas mesmo assim o metrô estava cheio. Não sentaram, mas conseguiram até fazer uma roda no meio do vagão e conversar. Porém, em determinado momento, o metrô faz um barulho estranho, um apito diferente.

– Xi, deu problema – disse a menina.

O metrô ficou um bom tempo parado na estação com as portas fechadas. Ela respirava e pedia que os outros continuassem falando para que o pânico não tomasse conta dela (afinal, já ficou presa por 40 minutos embaixo de túnel em pleno verão e horário de pico). Ela não se permitiu tocar  no assunto e continuava falando das expectativas para o curso daquela semana, quando ouve a voz do metrô.

“ Este trem com destino a Tucuruvi não prestará mais serviços devido a falha. Solicitamos a todos que desembarquem e aguardem o próximo trem”.

Ela suspirou aliviada. Assim que abrissem as portas, estariam livres e poderia respirar com mais calma. Não se sabe era o medo, mas foram intermináveis segundos até as portas se abrirem.

Ela saiu com rapidez e até voltou a sorrir, rindo para disfarçar o nervoso. Muitas pessoas aguardavam o trem seguinte quando uma outra moça, carregando duas mochilas, percebe que a menina não pára de falar e diz:

– Posso comentar uma coisa com você?

– Claro. – ela responde.

– Todo dia eu vou para casa de ônibus. Hoje que resolvi acompanhar um amigo no metrô, que provavelmente já está em casa, dá problema – diz.

– É…claro.  Lei de Murphy! – diz a menina sorrindo – A culpa foi sua então.

Todos dão risada e o próximo trem chega.

– Você vai colocar isso no seu blog, não vai? – pergunta um dos meninos que acompanhava a jovem após o curso.

– Com certeza.

Eles embarcara e ela não pôde deixar de lembrar que quando ficou presa, fez o mesmo que a moça que carregava duas mochilas: falou com estranhos para se distrair e desabafar a angústia que é ficar sozinha num trem lotado quebrado.

Veja + da série

#10 No transporte público –  tecnologia
#9 No transporte público – dúvida e incerteza
#8 No transporte público – fones de ouvido
#7 No transporte público – seleção brasileira deixa a Copa
#6 No transporte público – o que é o respeito?
#5 No transporte público – jogo do brasil
#4 No transporte público – amor entre amigas
#3 No transporte público – cidadão e funcionário
#2 No transporte público – mulheres e futebol
#1 No transporte público – o riso é o melhor remédio contra o mau humor
No transporte público – que série é essa?

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#3 No transporte público


Quando chove em São Paulo, o caos se instaura

Hoje o dia já amanhece prometendo não ser nada fácil. Chuva e frio invadiram São  Paulo o que complica ainda mais o caos no metrô e o trânsito na rua. Tenho uma crônica sobre chuva em SP. Clique aqui

Foram necessários 25 minutos para que eu conseguisse embarcar no trem na estação Tatuapé, mas para a minha alegria, uma nova conversa rendeu o capítulo 3 da série “No transporte público”.

Relógio: 8:35
– Pessoal, vamos ficar atrás da faixa amarela, por favor? – pergunta o funcionário
– Por acaso hoje não vai passar um vazio? – perguntou um cidadão
– Olha, a gente tinha mandado um que fez manobra, mas daí deu problema na estação Brás e ele teve que voltar – respondeu o funcionário
– É, eu vi. Cheguei na estação 8:10, bem na hora que anunciou que ia fazer a manobra, mas daí vi que ele foi pro outro lado.

Um metrô chega na estação molhando a todos por causa da chuva

– E ainda por cima ele tá parando fora da marcação da porta – reclama o cidadão
– É proposital – disse o funcionário – para que as pessoas que ficam na frente esperando o vazio darem passagem a quem quer embarcar.
– É…tipo eu?
– Você e todos que estão na frente – riu o funcionário.

Neste momento, o funcionário olha para o metrô cheio e diz:
– Sabe o que é pior? Fica tudo abafado e um monte de gente passa mal
– É, eu não tenho coragem de embarcar por causa do Brás – falou o cidadão
– O Brás é complicado mesmo. Meus equipamentos de trabalho são rádio, lanterna e luvas. Ja já que venho com desodorante.
– Desodorante?
– É! Tem gente que consegue feder logo cedo
Neste momento não pude conter a minha risada
– Tipo assim, sabe? Joga o desodorante antes de todo mundo entrar – fala o funcionário
– É…e uma bala talvez? Tem gente com bafão.
– hehehe, faz parte

– Ah, meu deus! – grita uma mulher
O funcionário vá ao lado dela e pergunta o problema
– Caiu meu guarda-chuva no vão entre o trem e a plataforma – disse
– Tudo bem, eu pego. Isso não é nada. Pior quando alguém cai – responde o funcionário
– E pensar que morre tanta gente e o metrô não divulga – fala o cidadão
– Tem tanta coisa que acontece neste país que não é divulgado – fala o funcionário – olha só…lá vem o vazio. Pessoal, se dirijam aos corredores.
Relógio: 8:40
E lá fomos nós lançados para dentro do vagão.

Para esclarecer:
O metrô em São Paulo nos horários de picos, das 7hs às 9h30, é lotado, principalmente na linha vermelha (leste-oeste). Todos os dias, neste período, há alguns trens que vão vazios nas estações penha, carrão e tatuapé para aliviar o acúmulo de usuários. O problema é que tem gente que fica esperando estacado na frente da porta e não dá passagem aos demais usuários. Falta mais cidadania do que estrutura por parte do metrô.

Outros episódios
#2 No transporte público
#1 No transporte público
No transporte público

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